Crônicas

Sei que valeu a pena

Sempre gostei de ler correspondências alheias. Não me entendam mal, todas com autorização legal, como é o caso das cartas de Fernando Pessoa, publicadas pela Companhia das Letras. Sempre quando leio alguma carta de Fernando Pessoa dirigida ao seu grande amigo Sá-Carneiro, sou tomado pela certeza de que amizade verdadeira é o alimento da alma. Na ocasião da morte de Mário Sá-Carneiro, Fernando Pessoa escreveu uma pérola, que precisa ser adquirida por aqueles que desejam alimentar a alma, para que haja grandeza de espírito. Ele diz que um amigo perdido é uma falha na alma, que nunca mais será preenchida. Um trecho desse poema, diz:

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
 
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes […] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
 
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.

Tenho minhas convicções, mas isso não me impede de conviver com outros raciocínios. Me impressiona o número de pessoas sem nenhuma disposição para ouvir os que pensam diferente deles. Estamos exagerando na hora de colocar nossas certezas, não aceitamos nenhum tipo de contra-argumento. Nosso comportamento agressivo tem comprometido nossas relações. Tornou-se mais importante preservar uma ideia, do que uma amizade.

Sabendo desse grave problema, quero dizer aos meus amigos que pensam diferente daquilo que pretendo argumentar, que não abrirei mão de vocês em favor das minhas ideias. Vou falar com muita cautela, pois não pretendo entristecer pessoas a quem muito quero bem, e que me são, sem nenhuma sombra de dúvida, mais caras que qualquer pensamento.  Inclusive sinto a necessidade de dizer, que estarei disposto a abrir mão de qualquer discussão, se não for bem-vinda, seja ela qual for, em prol da permanência das minhas boas convivências. Sei que serei chamado de idiota pelos amantes das calorosas colocações da VERDADE. Esses conseguem abrir mão de pai, mãe, irmão, amigo, pela convicção ideológica. Não compreendem o quão preciosos são os amigos. Preciso confessar que não conseguiria conviver com o peso de saber, que havia afastado um amigo pela simples discordância de ideias. Não suportaria saber que ele estaria aqui sobre a terra, com todas as suas qualidades e defeitos, alimentadores da minha humanidade, sem que eu pudesse desfrutar de sua companhia por um motivo tão banal.

A Bíblia trata a amizade como algo muito caro, sagrado, de grande valor. Diz no salmo 133, que a amizade é a própria manifestação da presença de Deus entre nós. Diz na epístola de João, que se você não ama seu amigo, não diga que ama a Deus, pois isso se constituirá uma mentira. Diz no evangelho de Marcos, que Jesus escolheu 12 pessoas, não para plantar algum projeto, mas simplesmente para estarem com ele; isso é amizade! Diz no evangelho de Lucas, que Jesus revelou aos seus amigos, que tinha um ansioso desejo de estar com eles. Quero colocar na íntegra o que disse Jesus para seus discípulos, no evangelho de João 15:15: “Já não vos chamo servos e sim amigos, porque o servo não sabe o que tem no coração do seu senhor”.

Quero mais uma vez deixar claro que amo ideias, pensamentos, ideais; porém amo mais meus amigos, porque pensamentos, ideias e ideais, estão apenas na minha imaginação, os amigos são reais, constroem comigo minha história. Gosto como o padre Antônio Vieira aborda esse tema no texto do Evangelho de João, no capítulo 13, que diz: “Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. O padre Antônio Vieira diz, que bastaria ao texto informar: “tendo amado os seus.” Quando diz que amou os seus que estavam no mundo, é porque Jesus não amou apenas na sua imaginação, no seu ideal, mas amou pessoas reais, que estavam no mundo, que tinham qualidades e defeitos; amou Pedro, João, Tiago, Tomé, Bartolomeu, Judas.

Estou falando tudo isso, porque encontrei um amigo de longas datas, e antes que eu falasse alguma coisa, ele me perguntou em tom firme: “De que lado você está?” Falei que não estava entendendo. Ele disparou com um semblante enfurecido: “Não precisa mais responder, já entendi, você é um daqueles que nem cheira e nem fede”. Pensei que era algum tipo de brincadeira, quando ele completou o que queria dizer: “Resolvi rever quem são meus amigos, eu tenho esse direito”. Permitam-me não contar os detalhes desse episódio, me sentiria envergonhado. Ele estava falando de preferências ideológicas, de orientações sociais e políticas.

A obra de Antoine de Saint-Exupéry, ‘O Pequeno Príncipe’, traz uma frase que ficou marcada e que precisamos resgatá-la nos nossos dias, que diz: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Numa sociedade, como disse Zygmunt Bauman, sem vínculos, de relações fluidas, laços frouxos, precisamos assumir responsabilidades com nossas amizades. Precisamos colocá-las no seu devido lugar de valor.

Meu amigo não sabia o quanto era querido e o quanto tinha me cativado durante os anos que convivemos. Assim como ele resolveu rever quem seriam os seus, resolvi ser mais responsável com os meus, inclusive com ele. Farei o que estiver ao meu alcance para ser responsável por aqueles a quem cativei. A conversa ficou acalorada e tive a certeza de que ele estava disposto a romper comigo por causa daquela discordância banal. Senti como se meu amigo estivesse escorregando por entre meus dedos. Precisava fazer alguma coisa. Não foi fácil, mas minha decisão de me acovardar naquele instante, no meio daquela rua, no começo me deu vergonha; mas agora, sem nenhuma pressão, depois de um bom banho quente, sei que perdi a discussão, mas tenho a convicção de que ganhei, estou alimentado na alma, sei que valeu a pena.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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