Crônicas

Homens e mulheres que se chamavam sonhos

Essa semana quando eu ia chegando em casa, cansado, porque estava no final do dia, já passava das 22 horas, precisei parar para dar passagem a um senhor. Parecia um vendedor de lanches, com mais ou menos 70 anos de idade. Estava empurrando um carrinho feito de carcaça de geladeira, com vários objetos empilhados, que chegava a uma altura de quase dois metros. Ele olhou e agradeceu sorrindo. Incrível como ele parecia com o meu amado e já falecido avô, de quem tenho doces lembranças e muita saudade.

Fiquei imaginando o porquê desse nosso mundo tão desigual. Enquanto uns acumulam recursos, que não consumiriam se vivessem um milênio, aquele senhor de 70 anos de idade, que precisaria estar numa vida mais confortável, acredito que por uma questão de sobrevivência, estava na rua, depois das 22 horas, empurrando um carrinho de lanches. Meu pensamento viajou, fiquei pensando quem seria aquele senhor, sua família, seus filhos, seus netos. De como poderia ser uma pessoa humana, de uma vida bonita. Pela forma como olhou e sorriu, sei que ele não era apenas um empurrador de carrinho de lanche.

Martin Buber, no seu livro “Eclipse de Deus“, diz que assim como o sol é encoberto pela lua e apesar de estar ali, não o enxergamos e até duvidamos da sua presença, assim acontece nas nossas relações com pessoas. Elas ficam encobertas por preconceitos e estereótipos e por isso, não acreditamos que possam ser além daquilo que estamos enxergando. O ser que realmente importa e tem valor está ali, mas duvidamos que isso possa ser possível.

Sei que tem muita gente justificando essa gritante e imoral desigualdade social, por acreditar na teoria definidora da meritocracia moderna, como um valor universal. Precisaríamos de mais luz sobre essa questão, para enxergarmos o que realmente importa e tem valor.  Precisamos ser convencidos de que a realidade não é bem essa. Comparo essa nossa cegueira em relação a meritocracia moderna, com a cegueira que alimentou a segregação racial nos Estados Unidos, com as Leis de Jim Crow.

Quando entrei em casa, com o coração apertado, falei para minha mulher como estava me sentindo em relação ao episódio. Lembrei-me do famoso discurso, “EU TENHO UM SONHO”, do líder do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr, em 28 de agosto de 1963. Ele estava cheio de sonhos e disse que iria continuar, mesmo que aquilo custasse sua própria vida. Tem um trecho do discurso, que diz: “TENHO UM SONHO, de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos, poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade. TENHO UM SONHO, de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação, onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter”.

Quando Barack Obama, no seu primeiro pronunciamento depois de ter vencido as eleições dos Estados Unidos, entrou na Casa Branca com sua mulher e as duas filhas, chorei. Aquele era o cumprimento do sonho de Martin Luther King Jr. Acredito que o presidente eleito, Barack Obama, naquele momento, estava pensando no discurso “EU TENHO UM SONHO”, proferido quase 46 anos antes. Pois ele em pleno discurso, parou, olhou para suas duas filhas, e disse: “Agora, vocês vão ganhar o que me pediram; um cachorrinho para levar à Casa Branca”.

Esse sonho de um mundo melhor sempre me aparece quando presencio cenas como essa do senhor de 70 anos. Foi aí que mais uma vez, comecei a sonhar um mundo melhor, mais justo, que enxergue e contemple, não um estorvo, mas um valor em pessoas como aquele homem. Um mundo onde as pessoas se enxerguem como família, como irmãos, pais, mães, avós. Um mundo movido por compaixão; interessado pelas causas e dores uns dos outros. Gosto de sonhar, porque acredito que tudo começa no sonho!

O sonho sempre fez parte da cultura da humanidade. No mundo antigo, os reis, faraós, imperadores e governadores, levavam os sonhos muito a sério e tomavam grandes decisões baseadas neles. Nas histórias bíblicas acontece a mesma coisa e os sonhos sempre aparecem em suas narrativas. O que fez José do Egito ser bem-sucedido, foi a sua capacidade de lidar com os sonhos. O mesmo aconteceu com Daniel, quando estava no cativeiro na Babilônia. É interessante como toda literatura valoriza a questão do sonho. Fiódor Dostoiévski, no seu belo conto “O sonho de um homem ridículo”, narra a história de um homem completamente desiludido, pessimista, que tem sua vida salva e mudada a partir de um sonho.

Gosto de sonhar quando estou dormindo. Sinto que as produções oníricas do sono me trazem inspiração e criatividade. Lembro-me que já tive boas experiencias quando criança de ir dormir intencionando sonhar com os conteúdos de uma prova e ser bem-sucedido. No livro “O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho”, o neurocientista Sidarta Ribeiro, diz que o sonho traz inspiração, criatividade e construção mental do que ainda não existe. Mas o meu forte é sonhar quando estou acordado, me traz esperança. Traz esperança porque os sonhos aparecem das necessidades de mudança. Percebi que na maioria das vezes, eles não vêm de mim mesmo, das minhas próprias necessidades. Sou influenciado por algo fora de mim. A causa não vem da minha necessidade individual. São sonhos provocados por desejos que são meus, mas que vêm da necessidade de outros. Sobre essa influência nos nossos sonhos, que vem de fora, que vem do outro, Fernando Pessoa, no seu belo poema, “Não sei quantas almas tenho”, diz:

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho e desejo
É do que nasce e não meu

Eu queria poder fazer alguma coisa, promover um descanso, melhorar a vida daquele senhor. Pensei até em me oferecer para ajudá-lo a empurrar aquele carrinho. Mas, nessas situações, sempre vem uma voz na minha alma dizendo que o melhor que posso fazer por esses que sofrem, por aquele senhor que me olhou sorrindo de uma forma tão humana, é continuar sonhando e acreditando que não estou só.

Quem sabe você que está lendo essa crônica – que também tem sonhos de um mundo melhor, um dia se una aos meus sonhos. Então esse encontro tornará nossos sonhos mais fortes. E quem sabe os nossos sonhos já fortalecidos, encontrem outros sonhos e então nos tornaremos mais fortes ainda.

Sei que é possível! Porque será como na história que diz: “O mesmo vento que move a folha de uma árvore, é o vento que forma o impetuoso ciclone nas águas quentes dos mares”. Nesse caso, o que aconteceu foi um encontro de ventos; no nosso caso, será um encontro dos sonhos. Não tenho nenhuma dúvida que muitas coisas boas que vivemos hoje, vieram do sonho de homens e mulheres, que no passado, ralaram na estrada da vida. Que mesmo diante das ventanias, não desistiram de sonhar esse mundo melhor. Homens e mulheres que se chamavam sonhos, como bem disse a turma do Clube da Esquina, com Milton Nascimento, que diz:

“Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço
Aço, aço, aço, aço, aço, aço
 
Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E os sonhos não envelhecem…”

Acredito que essa nossa luta não será em vão. O mundo ainda será um lugar melhor. E mesmo se não estivermos mais aqui, quem sabe nossos netos, os netos daquele senhor, quando perguntados do porquê daquele mundo melhor, falarão a nosso respeito, dizendo: PORQUE SE CHAMAVAM HOMENS E MULHERES, TAMBÉM SE CHAMAVAM SONHOS, E OS SONHOS NÃO ENVELHECEM”.

Flávio Leite


Ao clicar nos links em azul ao longo do texto ou em uma das imagens abaixo e efetuar compra, você contribui para manter este projeto no ar

Outras obras que indico:

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

2 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *