Crônicas

Pedaços de mim espalhados pelo tempo

Naquela época eu era um jovem de 27 anos de idade, com muitas certezas e uma convicção de maturidade. Hoje, com quase 55 anos, sei que era apenas um faminto pela vida, cheio de forças e sonhos, mas com desejos de eternidade que estavam mal acomodados na minha alma. No meio daquele trânsito de pessoas que andavam de um lado para o outro, achei uma coisa fora do lugar. Foi muito estranho! Sabe aquele pressentimento de que tem algo incomodando, mas você não sabe o que é? De repente, foi como se tivesse caído escamas dos meus olhos, passei a enxergar com clareza e tive a intuição de que minha consciência estava falando comigo. Eu estava no metrô de São Paulo, a quase 3000 km de casa, diante de uma coluna de concreto, larga, muito robusta, com uma aparência de que resistiria aos próximos mil anos. Apesar da sua condição inerte, indiferente a tudo, me flagrei num estado de concupiscência, cobiçando ardentemente o tempo de vida daquela coluna. Sentia como um aperto no peito, mas não conseguia discernir o sentimento, se inveja, injustiça, ou uma sutil sensação de que havia sido traído pela minha efêmera humanidade. Eu estava ali, com muita sede de viver, cheio de paixões e sonhos que transbordavam para além do tempo que me restava e de repente percebi que precisaria da longevidade daquela coluna; afinal de contas, por que só ela, uma coisa tão insossa, sem sentimentos e desejos, teria tanto tempo de vida?

Gosto de pensar minha existência, considerando a advertência que fez Abraham Joshua Heschel, quando falou da necessidade do cuidado com o tempo que nos foi conferido, já que a vida é a conquista do espaço em detrimento do tempo e que um dia esse espaço acabará abruptamente na barreira do tempo. Meu pai tem 90 anos de idade e confirma isso, pois quando relata suas memórias da infância, sempre tem a preocupação de alertar como tudo se passou extremamente rápido. Nossa grande escritora Adélia Prado, fala dessa realidade e traz uma receita para não vivermos uma vida sem sabor, sem vontade, já que é tão passageira. No poema “Tempo”, diz que precisamos colocar nosso desejo na fome existencial e não na busca de bens materiais, a poesia diz:


“A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de deus num vão.
descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se fliud jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
quarenta anos: não quero faca nem queijo.
quero a fome”

Nunca me passou pela cabeça que depois de adulto, eu poderia ser visitado novamente por aqueles desejos de eternidade mal acomodados na minha alma. A mais ou menos 2 anos atrás, um dos meus netos, que hoje tem 7 anos, me fez um pedido e no que depender de mim, pretendo realizá-lo; ele disse: “Vovô, eu queria pedir para você não morrer agora, não estou preparado”. Nessas horas nosso pensamento corre quase de forma involuntária, fiz uma projeção e comecei a fazer cálculos. Quando meu neto Arthur estivesse com a idade que eu estava, no caso 53 anos, eu estaria com 101 anos. Lidar com essa consciência do tempo diante de um pedido dessa natureza, vindo de um neto muito amado, me estremeceu a alma. Identifiquei aquele sentimento como um tipo de saudade; não por algo que tinha sido vivido no passado e que agora estaria apenas no tempo, mas por uma coisa muito desejada no futuro, ver meu neto com 53 anos, que só estava conseguindo enxergar na possibilidade de um tempo da minha ausência. Tem um jovem escritor conhecido como Lucão, especialista na dissecação da saudade, que traduz muito bem esse sentimento, quando diz: “Saudade são pedaços de nós espalhados no tempo, é o amor ficando infinito”. Acredito que foi isso que o apóstolo Paulo falou, se referindo a presença de Jesus de Nazaré entre eles, mesmo depois da sua morte; que o amor de Jesus tinha se tornado infinito. Aqui vai um pensamento para os religiosos que acreditam que a ressurreição de Jesus bastaria no céu. Se depois da morte de Jesus, sua vida não tivesse tido mais nenhuma influência na terra, mesmo ele ressuscitando no céu, de certa forma, a morte teria tido vitória, porque teria tirado ele de cena. Mas não foi o que aconteceu, então Paulo escreveu uma carta aos coríntios, dizendo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”.

Aquele pedido para que eu não morresse precocemente, aconteceu na ocasião de uma das minhas viagens para São Paulo e eu ainda estava muito pensativo. Naqueles dias fui ao metrô daquela cidade e sem premeditar encontrei novamente aquela robusta coluna. Porque estava num estado de desassossego da alma, tentei resgatar aquela estranha experiência que tivera há 26 anos atrás, de estar diante daquela coisa insossa, sem paixões e planos para o futuro e que mesmo assim teria um tempo de vida invejável, e eu cheio de sonhos e planos, porém privado de vivê-los, porque estariam para além do tempo que me teria sido concedido. Tentei conversar com aquela coluna e a minha consciência, mas o esforço foi em vão, não consegui. Apesar da coluna ser a mesma, eu era outro e o meu atual desassossego na alma, não vinha da mesma causa do desassossego da alma daquele jovem de 26 anos atrás. Eu não via mais na efemeridade da minha vida um estorvo, mas a necessidade de busca por melhores escolhas. Preciso confessar que estava em São Paulo, porque tinha tomado a pior decisão que poderia ter tomado naqueles dias, pretendia me estabelecer ali, a quase 3000 km de distância da cidade em que morava meu neto. Sabia que com toda aquela distância, os novos desafios, a necessidade de dedicação no novo projeto, tornaria aquela minha tentativa de conquista de espaço, no detrimento do tempo que poderia ser desfrutado com o Arthur. O problema não era o limitado tempo de vida que eu tinha, nem o risco de não cumprir o pedido feito pelo meu neto, mas a falta de coerência naquilo que estava buscando como tentativa de alimentação para minha alma.

Sei que levarei para sempre na minha memória aquela manhã fria, na estação de metrô da linha verde, na Avenida Paulista, onde novamente fui visitado pela intuição de que minha consciência falava comigo. Desta vez não havia aquele estado de concupiscência, cobiçando ardentemente o tempo de vida daquela robusta coluna de concreto, mas a revelação do que realmente precisaria para que minha alma se sentisse completa. Descobri ali, naquele lugar de encontro com a minha consciência, que na realidade o que verdadeiramente eu desejava, não era faca nem queijo, era fome. Eu estava cheio de sentimentos de saudade, com uma disposição para voltar e continuar construindo aquela preciosa história. Tive a certeza de que meu amor se tornaria eterno e que teria pedaços de mim espalhados no tempo, para quando eu não mais estivesse aqui, meu amado neto Arthur pudesse indagar, dizendo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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