Crônicas

O desejo de pisar em solo sagrado

Fui convidado para o aniversário de uma amiga, mas infelizmente não pude comparecer. Depois liguei para saber os detalhes e ela me falou que foi um momento ímpar. Teve a sensação de que nada lhe faltava naquele lugar, era como se estivesse completamente abastecida na alma. Disse-me que sentiu a nossa falta, por ter sido um aniversário com poucos amigos.

Você pode achar exagero eu dizer que a amizade é a maior virtude humana. Mas não só sou eu que penso assim. O importante advogado e filósofo do século I a.c., Marco Túlio Cícero, através de memórias precisas das histórias contadas por seu professor Múcio Cévola, sobre a lealdade entre Caio Lélio e Públio Cipião, escreveu um vasto tratado sobre amizade. Num trecho do seu livro, ele diz: “A amizade não é se não uma unanimidade em todas as coisas, divinas e humanas. Sem amizade a vida não é nada, pelo menos se quisermos viver como gente. Viver sem amigos não é viver”.

Quem já teve a experiência de ir morar em outra cidade onde não conhecia ninguém sabe como é frustrante querer celebrar por algum motivo especial e não ter com quem. Para celebrarmos a vida precisamos de amigos. Ninguém faz isso solitariamente. Se você conhece alguém, que desejando celebrar o aniversário, comprou um bolo, preparou tudo nos mínimos detalhes e cantou parabéns sozinho, se tiver oportunidade, veja o que aconteceu. Essa pessoa pode estar com sua saúde emocional comprometida.

Numa situação como essa, restaria apenas uma solução, fazer amigos ou amigas de forma rápida. Tal coisa jamais aconteceria. Fazer amizade é como fazer um bom vinho, requer tempo, existe um preço a ser pago. Mesmo que alguns discordem, o fato é que existe um longo caminho, até que se consiga transformar uva em vinho. É preciso gastar tempo para que todos os processos alcancem os resultados esperados. O grande crítico-chefe de vinhos, o americano Eric Asimov, disse: “Amo vinhos velhos, mais do que posso pagar por eles”.

Mesmo havendo um ardente desejo de celebração por algo que nos aconteceu, não poderemos jamais chegar para uma pessoa que conhecemos há pouco tempo e dizer: “Estou precisando celebrar à vida e não posso fazer isso sozinho, por isso queria propor para sermos amigos ligeiro”. Não iria funcionar! Para se fazer um amigo é preciso percorrer lado a lado algumas jornadas. Amizade só existe quando temos experiências comuns, choros e risos juntos.

É como a linda história de amizade entre Davi e Jônatas. A narrativa diz que Jônatas e Davi fizeram um pacto de amizade. Algum tempo depois muita coisa mudou, o rei Saul, pai de Jônatas, se tornou inimigo mortal de Davi. Saul tentou convencer Jônatas a romper com aquela amizade. Quando Jônatas percebeu que seu pai planejava matar Davi, resolveu renovar aquele pacto de amizade. Foi como se Jônatas dissesse: “Quando jurei pela nossa amizade, eu não tinha ideia do que era. Mas depois das muitas coisas que passamos juntos, tantos risos, tantos choros, tantos riscos, preciso novamente afirmar nossa aliança, porque agora sei o que é ser seu amigo”.

Amizade se constrói com tempo e o tempo é intocável na sua essência, não podemos alterá-lo. Ele existe no espaço do sagrado. Se tratando desse assunto, tem uma coisa que me chateia, é o fato de nos deixarmos levar pelo engano de que o sagrado é uma propriedade da instituição religiosa. O sagrado é para todo aquele que é movido por uma necessidade de manifestar gratidão pela vida. Gente comum, de carne e osso; independente de etnia, raça, cor, gênero, ou credo religioso.

A primeira vez que a palavra “sagrado” aparece na bíblia, “kadosh” no hebraico, foi pela necessidade de celebração da vida. No Livro do Gênesis, capítulo 2, diz: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era tudo muito bom. E havendo Deus terminado no dia sétimo toda sua obra que fizera, descansou. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou”.

O texto diz que Deus terminou de fazer o mundo, olhou e disse: “Estou muito alegre, tudo está perfeito! Agora é preciso santificar, revelar o sagrado, mostrar o que realmente tem um excepcional valor na vida”. E ao invés de santificar a montanha mais alta do mundo, ou o rio mais cristalino, santificou o intervalo de um dia, santificou o tempo. Era como se fosse um alerta, para não tornarmos banal, aquilo que fosse construído no tempo.

Com o advento da internet e das redes sociais, há uma insistência para convencer-nos, de que existe a possibilidade de termos muitos amigos. Não tenho nenhuma dificuldade em considerar as redes sociais como uma eficaz ferramenta de relacionamentos. Mas pela crença que temos adquirido, de que poderemos colecionar com rapidez uma multidão de amigos, penso que nos distanciamos do sentido do sagrado. Promovemos a banalização do significado da amizade.

Acredito que foi por isso que Jesus, quando foi falar dos lugares sagrados, lugares de celebração, nos preveniu acerca da pretensão dos muitos amigos, dizendo: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles”.

Foi encantador o jeito como minha amiga falou daquele momento de celebração do seu aniversário. Provavelmente o que fez aquela ocasião ser tão especial, foi o fato de ter sido, como ela mesma expressou, “um aniversário de poucos amigos”.

Hoje, com 54 anos de idade, consciente de que já vivi a maior parte do tempo da minha vida, quero ser criterioso. Não posso vacilar andando em terrenos estéreis. Estou cheio de desejos de pisar em solo sagrado, celebrar a vida com pessoas a quem amo e quero bem. Para isso carregarei a certeza, de que todo lugar de celebração, para ser verdadeiro, precisará ter sido construído na santidade do tempo, forjado com a presença do amor, não mais de dois ou três, porque esse sempre será o lugar da reunião de poucos amigos.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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