Crônicas

O caminho te será sobremodo longo

Hoje acordei pensativo. Sabe quando estamos em marcha desacelerada, com pensamentos lentos, quase adormecidos? Você está acordado, sem nenhuma sonolência, olha para as coisas ao seu redor, seus olhos enxergam, mas seu pensamento continua no mesmo lugar, ali com você, mas sem nenhuma pretensão de fazer algum tipo de juízo do que vê.

Não experimento um estado de inconsciencia ou apatia, nenhum tipo de desinteresse pelo momento. É exatamente o contrário, há uma intuição de que algo mais profundo do que o comum, está diante dos meus olhos, está falando comigo.

Acho que foi isso que aconteceu com o profeta Jeremias, depois da morte do seu grande amigo, o rei Josias. Jeremias estava na sua rotina e de repente, foi levado à casa do oleiro. Naqueles dias, com a descoberta da cerâmica, não existia lugar mais comum. Em toda esquina havia uma casa de oleiro. A narrativa diz: “Então, fui à casa do oleiro e ele estava lá, trabalhando na sua roda de madeira, entregue à sua obra. Sempre que o vaso de barro, que estava nas suas mãos se estragava, ele tornava a fazê-lo novamente. Então veio a mim uma mensagem: Não pode Deus fazer das nossas vidas o que faz o oleiro? Se estivermos nas mãos de Deus e nos estragarmos, Ele não poderá nos fazer de novo e recomeçarmos?

Quando sou surpreendido por isso, julgo como uma espécie de estado de graça. Aproveito o máximo que posso. Não sinto desejo de me recolher, seria um desperdício ficar parado. Procuro cumprir a agenda do dia, aqueles compromissos que não precisarei falar com alguém ou responder alguma coisa. O fato de eu estar nesse estado desacelerado, no meio de um movimento comum, vendo as pessoas entregues às suas tarefas, caminhando de um lado para o outro, me traz boas sensações.

Por viver em um mundo de muitos movimentos, barulhos e atividades, confesso que gosto quando isso acontece. Tenho a impressão de que ninguém está me vendo e isso me faz desfrutar de uma profunda comunhão comigo mesmo.

Sou seguido por uma sutil consciencia do que realmente está acontecendo, mas quase que em uma sabotagem, para que continue existindo essa leveza de espírito no ambiente acalentador da minha interioridade, minha razão esconde por um tempo a causa que promove esse benefício. Porém, sei que não seria saudável viver essa experiência para sempre, preciso me encontrar com a trama real da vida, onde necessito agir e interagir.

A expectativa da manifestação da razão, revelando o motivo do porquê de tudo aquilo, foi cumprida. De repente tudo ficou claro. Aflorou a consciência de que, para não entrar em um estado profundo de tristeza, precisarei sempre desses momentos de refúgio. Essa sensação de marcha desacelerada, pensamentos lentos, quase adormecidos, me alimenta e guarda o meu coração. O olhar das coisas ao meu redor, sem pretensão de fazer juízo do que vejo, me faz amar como ama o amor. Gosto da orientação da “Carta aos Coríntios”, de como amar como ama o amor, que diz:

Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor vence todas as coisas

Estou em um mundo dividido por modelos e opiniões. Pessoas que se enxergam por filtros do fenômeno da ‘coisificação’, da impessoalidade. Peço encarecidas desculpas aos militantes de causas defensoras das minorias, que resistem o mal com o mal. Acredito que vossas militâncias estão fazendo mais mal do que bem. Sempre conservei o princípio de que uma coisa que segrega, mesmo que em nome do bem, sempre fará mais mal do que bem. Mesmo que isso seja feito nas melhores das intenções. Sei que foi por isso que o apóstolo Paulo falou na sua “Carta aos Coríntios”, quando disse: “Quando, pois, vos reunis para a ceia do Senhor, existe divisões entre vós. Vos ajuntais não para melhor, e sim para pior. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que já desanimaram”.

Compreendo a vida a partir da alteridade, do outro. A partir da história de pessoas de carne e osso, com seus dilemas e inadequações. Pessoas que mesmo incompreendidas, são merecedoras do cuidado incondicional. Encontro sentido no existir, na convivência com gente frágil, que desparta empatia em todos aqueles dispostos a amar como ama o amor. É no encontro com o outro, na amizade, na poesia, na natureza, que sou movido pela paixão de continuar seguindo. Esse ambiente da contemplação do encontro com todas as coisas, revela beleza, me traz eco, sinto-me acompanhado. Isso me faz lembrar um momento da vida do profeta Elias. Ele está decepcionado com a maldade humana. Chega a pedir a morte, porque se sente só, desacompanhado. O texto diz: “Elias pediu para si a morte e deitou-se debaixo de uma árvore. Veio um anjo, o tocou e lhe disse: Levanta-te, come e bebe. Elias viu um pão cozido sobre pedras em brasa e uma botija de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Voltou o anjo, tocou-o e lhe disse: Levanta-te, come e bebe, porque o caminho te será sobremodo longo”.

Essa experiência que vivi hoje, não só me desafia a amar como ama o amor, mas acende minha esperança de que não é o fim. Sei que não estou só, porque sinto-me acompanhado por todos aqueles que insistem na beleza humana. Mesmo não sendo um anjo, quero falar a você que se sente cansado, que já pensou em desistir: “Levanta-te, come e bebe, porque o caminho te será sobremodo longo”.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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