Crônicas

O caminho que nos levará de volta para casa

Estamos experimentando a era dos barulhos e ruídos. A web, com suas redes sociais, trouxe muita coisa boa, aliás, mais coisas boas do que ruins. Das coisas ruins, temos a exagerada e veloz disseminação de péssimas ideologias. Julgo uma coisa nociva, porque a ideologia, que na maioria das vezes só funciona na nossa imaginação, sempre é colocada acima da vida real. Eis a razão para a desvalorização da pessoalidade e tanta polarização nesses últimos dias. Polarização essa causada pela negação do que realmente importa, pela ingratidão e ignorância de como nos tornamos quem somos.

Temos sido roubados de nós mesmos.

Precisamos de silêncio para fugirmos desses barulhos e ruídos desconfortantes. Sei que esse não é o espaço apropriado, mas peço permissão para nessa oportunidade não escrever uma crônica, mas um desabafo. Quero que esse desabafo soe como um conselho as nossas almas. Uma mensagem que vá além dos nossos ouvidos. Um conselho que nos leve a escutar a voz da nossa interioridade, ouvir o que na maioria das vezes é inaudível.

Julgo uma situação de extrema necessidade. Temos que exercitar a intimidade interior e isso só se faz no silêncio. Os barulhos e ruídos impossibilitam ouvirmos o inaudível. Existe um trecho poético que gosto muito. Fala exatamente sobre isso. Relata o desejo de um marido, em interromper barulhos e ruídos que impedem de ouvir o inaudível. Queria ouvir aquilo que só se poderia ouvir com os ouvidos da alma. O texto encontra-se no Livro de Cantares de Salomão, que diz: “O meu amado fala e me diz: Levanta-te querida minha e vem. Porque eis que chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz do pássaro ouve-se em nossa terra”. Eugene Peterson, na bíblia “A Mensagem”, traduz essa “voz do pássaro” como “doces acordes”.

Precisaremos, uma vez ou outra, desse silêncio que nos faz ouvir a voz do pássaro, os doces acordes que nutrem a alma. Até nosso órgão auditivo, o ouvido, deixa de perceber alguns sons quando estamos no meio de barulhos e ruídos. Eu estava andando com minha esposa no calçadão da Beira Mar, em Fortaleza, quando percebi que não estava ouvindo o mar. Fiquei surpreso, porque no passado, andei muitas vezes naquele calçadão ouvindo o mar. Parei e observei que ele ainda estava ali. Pude ouvi-lo perfeitamente. O que estava acontecendo era que os ruídos e barulhos provocados pelo grande movimento de carros e pessoas que nos distraía. Os ruídos e barulhos no pensamento, também distraem os ouvidos da alma.

Por toda angústia que tenho testemunhado, já é hora de pararmos e ouvirmos nossas necessidades existenciais. Conheço famílias que estão divididas. Outras que estão confusas. Algumas já se desconhecem. Amigos que perderam a identificação. Pais e filhos que não se entendem; falam e escutam linguagens estranhas as suas.

Julgo um momento oportuno para voltarmos nossa atenção para dentro de nós mesmos. Praticarmos uma espécie de comunhão interior. Estarmos numa certa medida, conscientes de quem somos. Digo “numa certa medida”, porque nunca chegaremos à consciência plena de quem realmente somos. Seria algo muito transcendente. Sei que os mais afoitos nas questões do conhecimento existencial, discordam disso.

Somos morada de nós mesmos. Em alguns momentos, precisaremos harmonizar os processos das práticas e percepção advindas da nossa exterioridade com a realidade de quem  realmente somos na nossa interioridade. Já me senti angustiado algumas vezes e quando parei para pensar no que poderia estar causando aquele sentimento, descobri que era a falta do encontro comigo mesmo. Estava me sentindo afastado de mim. Com uma necessidade de voltar para minha casa interior.

O filme “O Solista”, estrelado por Jamie Foxx e Robert Downey, conta a história de um jornalista, o Sr. Steve Lopes, que se tornou amigo de Nathaniel, um músico que vivia nas ruas como mendigo. Nathaniel, diagnosticado com esquizofrenia, vê a música clássica como a razão da sua vida. O Sr. Steve Lopes, na tentativa de ajudar, mas sem compreender o que realmente passava na interioridade de Nathaniel, tenta um caminho que só piorou a situação. Depois de um tempo de convivência, o Sr. Steve Lopes entendeu e o filme termina com sua declaração, dizendo: “Ao testemunhar a coragem de Nathaniel, a humildade dele, a fé no poder da arte, eu aprendi a dignidade em ser leal a algo que se acredita, e se prender ao que se gosta. Acima de tudo em acreditar sem pestanejar, que é isso que vai levar você pra casa”.
A última cena do filme revela o que devemos fazer, quando nos sentirmos perdidos existencialmente, que é: “praticarmos a dignidade de sermos leais a algo que acreditamos e confiarmos sem pestanejar, que será isso que nos levará de volta pra casa”. Temos crenças e valores que nos sustentam e conservam quem somos.

Estamos sendo minados nos valores e comunhão com nossas próprias crenças. Somos influenciados por coisas estranhas a tudo que somos. Nesses últimos dias, existem vários pacotes fechados, com ideias e pensamentos próprios. Ideias que nos dividem como pessoas, enquanto roubam nossa beleza da diversidade humana. Pacotes que exaltam nossa uniformidade, tirando nossas valorosas diferenças. Você não pode mesclar a ideia de um pacote com outra ideia que pertence a um outro pacote.

A impressão que tenho é que terei que escolher um lado. O lado que escolher, perderei amigos que estarão do outro lado. Daqui pra frente, se desejar continuar com todos os meus amigos, não poderei ser eu mesmo. Se não quiser perder pessoas, terei que ter o cuidado de fazer boas manobras.

Teremos que fazer escolhas: ou seremos realmente quem somos e perderemos alguns amigos, ou entraremos em um desses pacotes fechados e perderemos pessoas, ou faremos manobras dissimuladas, mentindo em alguns momentos sobre quem realmente somos, na tentativa de não perder ninguém. Qualquer uma dessas opções, se aderidas, será danosa para nossa saúde. Adoeceremos na alma!

Não podemos aceitar esses modelos deformadores de quem somos. Não devemos permitir que os barulhos e ruídos nos confundam e digam no que deveremos nos tornar. Temos que considerar a importância da preservação de um mínimo daquilo que somos. Nossa personalidade está sendo erguida na caminhada da vida. É com passado, presente e expectativa de futuro que somos formados. São processos que envolvem valores construídos no tempo.

Não acredito que possamos ignorar nosso passado completamente. Desconsiderar o prazer das boas lembranças. Não seria saudável! Isso negaria nossa história, vivências, tradições e tudo que nos fez até aqui. Imagine a tragédia de alguém apagar toda sua vida passada. Esse alguém deixaria de existir.

Peço compreensão e clemência aos que foram impregnados por ideologias e doutrinas religiosas, que consideram todo passado maldito. Que em nome de suas leis já perderam a noção de humanidade e valor das afeições construídas no tempo. Que desprezam a preciosa bagagem acumulada ao longo da estrada. Que desconsideram o preço das gloriosas memórias que carregamos e nos alimenta a alma.

Que virtude teria alguém que se tornou tão nova criatura, ao ponto de não ter sobrado nenhum passado, nenhuma memória, nenhuma gratidão? Se isso acontecesse comigo, eu teria sido roubado de mim mesmo! Teria perdido a capacidade de ouvir e enxergar com a alma.

William Blake, poeta inglês do século VXIII, viveu em um período como o nosso; de muitos ruídos e barulhos, no período do Iluminismo. Muitas imposições e verdades que desfaziam todas as suas crenças passadas. Sua biografia diz, que apesar de todo talento, não alcançou fama. Sempre viveu muito próximo da pobreza. Isso porque nunca permitiu que lhe roubassem a alma. Ainda criança teve visões angelicais e crenças que conservou por toda sua vida. William Blake recusou acreditar como todo mundo tinha sido induzido a acreditar. Muitos se negavam a ver a pobreza e injustiça que estavam sendo geradas. As pessoas se adequavam às convenções sociais, com a promessa de um pseudo-paraíso. Em “Augúrios de Inocência”, William Blake escreveu sobre a força e resistência da alma; como poderia ver beleza, mesmo diante do trágico. Enxergar e discernir a verdade, mesmo diante da mentira. Um trecho da poesia, diz:

Toda noite e toda manhã linda,
uns nascem para o doce gozo ainda
outros nascem numa noite infinda
Passamos na mentira a acreditar
quando não vemos através do olhar
que uma noite nos traz e outra deduz,
quando a alma dorme mergulhada em luz
Deus aparece e Deus é luz amada
para aqueles que na noite têm morada
E na forma humana se anuncia,
para aqueles que vivem nas regiões do dia.

Sei que não está sendo fácil, mas nem tudo está perdido. Ainda testemunharei a coragem de homens e mulheres que não se renderão a esses barulhos e ruídos desumanizantes do nosso tempo. Homens e mulheres que aprenderão a dignidade de serem leais àquilo que acreditam. Homens e mulheres que mesmo sofrendo angústias, não duvidarão que esse será o caminho que nos levará de volta pra casa.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

2 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *