Crônicas

O amor mora em mim

Um amigo me telefonou, queria falar como se sentiu depois de ler uma crônica que escrevi falando que o amor tudo sofre. Perguntou-me se amor era um tipo de prazer no próprio sofrimento, uma espécie de masoquismo da alma. Estava chateado – um momento comum da nossa realidade humana – passava por alguns contratempos na sua história de família. Às vezes ficamos cansados com alguma coisa e temos a impressão que tudo e todos são um estorvo, mas quando caímos em nós mesmos entendemos que é só um cansaço que nos confunde. No fundo, meu amigo sabia que aquele sofrimento não desfazia seu desejo de cuidar do que era precioso. Homem admirável! Casado, pai de dois filhos, uma neta, e muitos causos para contar que nos encantam e nos fortalecem. Achei a pergunta pertinente, pois a resposta revelaria muitas coisas do mistério do amor, principalmente onde ele mora. Pedi licença ao meu estimado amigo para publicar nossa conversa e ele prontamente concordou. Meu amigo sentia uma dor, porque seu filho estava sofrendo e ele julgava saber um caminho para o alívio daquele rapaz. Embora sendo um caminho fácil e coerente aos seus olhos, seu filho insistia em não considerar aquela opinião. Quando gostamos de alguém, queremos vê-lo com alegria, sem sofrimento.

Queria ter o poder de transformar a vida de algumas pessoas que conheço, aliviar um pouco suas dores. Sei que isso é o amor e que esse sentimento está adormecido por muitas distrações do nosso tempo, mas que mora no coração de toda gente.  Quando digo toda gente, é porque para ser gente, no sentido da representação humana, é preciso amar, e amar é o desejo de enxergar o outro com cuidado. Já ouvi alguém dizer que a expressão “se cuida”, é uma forma sutil de dizer eu te amo. Quando Caim matou seu irmão Abel, a primeira pergunta que Deus fez, foi: “Onde está Abel, teu irmão?”. A resposta de Caim, foi: “Acaso sou cuidador do meu irmão?”. Deus disse: “Sim, você é o cuidador do seu irmão”. Você e eu fomos feitos para cuidar, ou, fomos feitos para amar, que tem o mesmo significado. Gosto de olhar minha esposa e amigos a uma certa distância, sem que eles percebam que estou observando. Me traz sensações de que preciso cuidar. Essa observação sem interferências nos faz ver carências, limitações, necessidades, sinais de fragilidade. Essa foi uma forma que encontrei de alimentar meu amor. Você pode estar pensando: essa forma de alimentar o amor é muito pequena. Sei que é pequena, mas o amor é assim, nasce e cresce a partir daquilo que é pequeno, despretensioso. Jesus disse que o Reino de Deus é o amor e o comparou com um grão de mostarda, que um homem planta em seu campo e que embora sendo a menor entre todas as sementes, quando crescida, torna-se maior que as hortaliças e atinge a altura de uma árvore, de modo que as aves do céu vem fazer os seus ninhos em seus ramos. Jesus quis dizer que o amor aparece no ambiente do que é despretensioso, modesto, simples, pequeno.

Quem já assistiu o filme “A Lista de Schindler”, inspirado na obra de Thomas Keneally, sabe que existe uma mensagem muito forte, a qual considero um alerta. Eu colocaria mais ou menos, assim: “Cuidado! Se você não quer amar, não se aproxime de nenhuma manifestação de amor, por menor que seja, pois pode tomar proporções incontroláveis”. O filme conta a história real de Oskar Schindler, o industrial Alemão, espião e membro do Partido Nazista, que no período da segunda guerra mundial, na intenção de se beneficiar com a mão de obra de prisioneiros judeus, foi alcançado pelo amor que, crescendo, tomou proporções incontroláveis e isso quase custou sua vida. Não vou contar detalhes, pois se você assistiu ao filme, sabe do que estou falando, se não, assista, vale a pena.

Há uma urgência necessária em compreendermos que o amor nasce da simplicidade, porque vivemos num mundo que ama a sofisticação, adora a complexidade. Talvez seja essa a razão da desintegração do amor nos nossos dias. Peter Drucker, escritor austríaco de nacionalidade americana, considerado o pai da administração moderna, disse: “A simplicidade tende ao desenvolvimento, a complexidade à desintegração”. Aqui vai um conselho para quem quer se tornar um amante: Seja simples, sem carta na manga, despretensioso; como disse Jesus, “limpo de coração”.

Gosto do poema de Rubem Braga, “O Pavão”, que na realidade não pretende falar sobre o pavão, mas da simplicidade do amor, que diz:

“Eu considero a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico”.

Não preciso me preocupar em buscar o amor em outros lugares, o amor mora em mim mesmo, na minha simplicidade. Apesar da simplicidade e despretensão do amor, somos expandidos e levados a outros lugares além de nós mesmos, lugares nunca visitados; o amor nos leva ao outro, aquele a quem amamos. Por isso o amor “tudo sofre”, não por nós mesmos, mas por enxergarmos o sofrimento do outro. Eugene Peterson, teólogo americano, na tradução da Bíblia “A mensagem”, diz: “O amor se preocupa mais com o outro que consigo mesmo. Não se impõe sobre os outros, não age na base do ‘eu primeiro’”. Isso me fez lembrar uma história que ouvi de uma senhora que não via a amiga há alguns anos e querendo remir o tempo, falou da maior novidade que havia acontecido naquele intervalo: o amor ao marido que tinha conhecido há dois anos. Para justificar o por quê daquele grande amor, disse: “Ele nunca me diz não. Você ainda lembra como detesto receber não? Ele nunca me contraria, procura fazer tudo que gosto e me diz palavras carinhosas todo santo dia”. A amiga, disse: “Sim, onde entra a história do seu amor? Porque até agora você só falou do amor que ele sente por você!” O amor não parte do outro, mas de mim e talvez por isso Jesus disse: “Amai os vossos inimigos”.

No meio daquele telefonema, meu amigo ali, sofrendo, abrindo seu coração, eu só ouvia, e sem que tivesse oportunidade de dizer alguma coisa, uma palavra de conforto, um conselho, fui surpreendido, quando ele, do nada, me disse: “Agora estou pronto, obrigado por me ouvir, desabafar é sempre bom, preciso desligar logo, quero abraçar meu filho e dizer o quanto é bom tê-lo e amá-lo”. Aquilo me fez um bem tremendo! Percebi que tenho algumas pendências queixosas, pessoas amigas que me causaram tristezas, mas que são humanas, frágeis como eu; necessito abraçá-las e dizer o quanto preciso amá-las. Enquanto ouvia meu amigo falar, pensei em convencê-lo de que o amor morava nele mesmo, através das palavras do nosso grande gênio Fernando Pessoa; mas já que ele precisou desligar e não tive tempo, queria ter oportunidade de convencer a todos que precisam amar, de que o amor mora em nós mesmos, pois o poema diz:

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

13 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *