Crônicas

Nossa potência de agir está na alegria

Foi no aeroporto da cidade do Recife, ano de 2014, onde mais uma vez tive a confirmação de que o que conta para continuarmos empolgados na vida, não é nada encontrado fora de nós mesmos, mas na nossa interioridade; o ânimo, por exemplo, é um atributo disso. Ele nos dá lentes maravilhosas para enxergarmos o belo, onde muitos enxergariam o trágico.

Olhei e vi uma cena que não só confirmou isso, mas me trouxe bons sentimentos: um jovem de aproximadamente vinte e cinco anos de idade parou seu carro no embarque daquele aeroporto – um Passat de cor azul, ano 1982 – conheço bem aquele modelo porque foi uma das minhas paixões no passado. Muitos se sentiriam constrangidos em parar no embarque de um aeroporto um Passat com trinta e dois anos de uso, paralamas fixados com arames, capô de uma outra cor, ferrugem nas laterais, mas não foi o que aconteceu, aquele jovem abriu a porta e desceu do seu carro animado, com movimentos rápidos, quase correndo e com expressão de satisfação no rosto, foi em direção ao porta-malas traseiro, levantou a porta e tirou uma espécie de cabo de vassoura para fixá-la no alto, enquanto retirava várias caixas e depositava na calçada do embarque daquele terminal. Fiquei tentando imaginar o que passaria no pensamento daquele rapaz naquele momento, talvez estivesse envolvido em um novo projeto profissional, um negócio que julgava promissor, ou enxergando alguma boa possibilidade.

A verdade é que eu estava diante de uma cena encantadora, uma pessoa que tinha provavelmente, na maioria dos olhares, razões para estar menos animado, mas ao contrário, transmitia uma força sedutora, que despertava ânimo. Cenas assim nos inspiram, somos necessitados de animadoras influências, precisamos da presença de pessoas que nos elevam, amigos que transmitem alegria. Uso a palavra alegria, porque não encontro outra melhor para definir aquele ânimo, aquela potência de agir, como definiu o filósofo do século dezessete, Baruch Espinoza, que a nossa potência de agir está na alegria. Que cena linda, impagável para quem assiste e tão necessária para todos nós, alguém animado apesar das circunstâncias, com desejo de movimento quando existe razão para paralisar, com uma espécie de fome pela vida.

A grande escritora mineira, Adélia Prado, vê o ânimo como uma fome pela vida, fome de desejo, fome de movimento, e no poema “Tempo”, ela diz:

Neste exato momento do dia vinte de julho,

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome”.

Na maioria das vezes, justificamos nossa paralisia diante da vida, pela falta de “faca e queijo”, onde na verdade o que nos falta é “fome”. Quero vigiar sempre para não perder a fome, o desejo de viver. A vida é bela! Apesar das contingências, das incoerências, do acaso trágico, a vida é nosso bem precioso. O que nos move é a fome, o desejo; somos seres apetitosos, faz parte da nossa humanidade, o desejo é importante para não paralisarmos em algumas situações; esse apetite existencial nos traz fome, é o alimento da alma, nos tira da apatia, da indiferença, nos faz rir, chorar, enxergar o belo. Um dos mais impactantes discursos da história, fala sobre fome e sede de movimento, que é o caminho da boa ventura, da vida bem vivida.

O sermão do monte, proferido por Jesus de Nazaré, diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede”. Em um tempo de grande ansiedade, que morremos de depressão, de indiferença diante da vida, precisamos, também, conviver com pessoas que têm fome e sede, que nos inspiram a continuarmos motivados, mesmo quando o trágico surpreender o nosso caminho, de acordarmos no dia seguinte mesmo quando tivermos algumas batalhas para guerrear.

Não consegui disfarçar minha admiração por aquele rapaz, de tanto observar ele olhou na minha direção, cumprimentou-me sorrindo com um menear de cabeça. Queria poder ser amigo daquele jovem, seria um presente, não perderia a oportunidade de beber um pouco daquela alegria, daquele ânimo, daquela fome e sede pela vida. Vi naquele jovem um desejo de oração que estava adormecido dentro de mim: “Senhor, não quero faca nem queijo, quero fome para transformar a tragédia em drama que me faz chorar, chorar não porque é feio, mas porque enxerguei o belo; não porque perdi, mas porque enxerguei na perda o quanto fui agraciado pelo tempo daquela presença”.

Flávio Leite

Minhas indicações:

SPINOZA, BARUCH – O Degustador de Pamonhas – Reflexões Sobre A Essência da Vida
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