Crônicas

Meu desejo de um mundo melhor

Estava em um restaurante com minha esposa e um casal de amigos, quando fomos cumprimentados por uma garotinha de mais ou menos 12 anos que queria nossa atenção pois estava vendendo algumas bijuterias. Apesar da alegria estampada no rosto, haviam sinais de cansaço, olhei para o relógio e já passava das 23hrs. Perguntei seu nome e onde morava. Fiquei chocado, ela morava em um bairro muito distante, quase fora da cidade. Não conseguia disfarçar meu constrangimento, nós ali confortavelmente, jantando, que depois de satisfeitos, pegaríamos o carro e facilmente chegaríamos em nossa confortável casa, e aquela criança, já cansada, teria de percorrer uma longa distância, sei lá como, para chegar ao seu destino, provavelmente um precário lugar de morada. Ela tinha um jeito de falar engraçado, ao mesmo tempo firme, cheia de convicções, com um poder de convencimento invejável, muito cativante, sempre passando a mão no alto da cabeça e olhando de lado, por entre o braço, que na verdade seria uma tática para observar se vinha algum funcionário do restaurante para impedi-la de estar ali.

Acho minha vida muito boa, sinto-me um homem de sorte, mas em linhas gerais, todos nós buscamos uma vida melhor e consequentemente um mundo melhor, isso é natural da nossa humanidade. Quando nos deparamos com situações como essa que acabei de narrar, essa vontade de um mundo melhor vem mais forte em nós.  Eu queria um mundo melhor para aquela criança!

Já tentei algumas vezes imaginar um mundo melhor e nesse caso, a primeira coisa que vem no pensamento é o tipo de pessoa que habitaria nele. Fiz a seguinte pergunta: Que tipo de gente tornaria esse mundo melhor? Você pode pensar que responder a essa pergunta é uma tarefa fácil, mas não é, experimente e vai chegar a essa conclusão. Já tentei planejar tudo nos mínimos detalhes e percebi que não tenho nenhuma competência para criar mundos. Comecei esse exercício da seguinte forma: Imaginei que tipo de virtude esse mundo não poderia deixar de ter. Depois vi que era um risco me dedicar demais à virtude e negligenciar possíveis deformações.

Nessa busca tive algumas surpresas, como por exemplo, a estranha conclusão que cheguei de que pessoas perfeitas não poderiam pertencer a esse mundo. Não daria certo, seria um mundo muito entediante, ninguém aguentaria. Não existe coisa mais enfadonha que conviver com gente certinha demais, é cansativo, torna-se quase uma maldição. Gente perfeita não dispensa nada de ninguém, tem dificuldade de perdoar, não admite que o erro faz parte da nossa frágil humanidade. Acho que foi por isso que o sábio no Livro do Eclesiastes, escreveu no capítulo 7: “Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?”. Eu acrescentaria a esse texto do Eclesiastes a seguinte exclamação: “Isso é muito chato!”. Nem tudo que é bom, trazido em excesso promove felicidade. É o caso de Midas na mitologia grega. O rei Midas que era extremamente rico e fascinado pelas riquezas, tendo a oportunidade de pedir a Dionísio o que quisesse, pediu para que tudo aquilo que tocasse fosse transformado em ouro; não vou contar a história, mas posso garantir que aquele excesso foi um vexame, virou uma maldição.

Outra surpresa que tive, foi a ironia de que, depois de ter estabelecido todos os critérios daquele mundo melhor, eu não poderia morar nele. Eu seria muito infeliz! Precisaria levar algumas pessoas a quem amo muito e que não seriam aceitas, segundo os critérios estabelecidos. Não posso negar, são pessoas complicadas, mas dependo delas, preciso estar perto, não imagino minha vida sem elas. Não fiquem pensando que são pessoas ruins, são pessoas boas, acreditem, mas por algumas circunstâncias, na tentativa de se proteger, tornaram-se amargas, endurecidas, individualistas, não conseguindo ver facilmente o pedido de socorro de outros. Acho que essa característica de pessoas que não se movem com a dificuldade do outro, virou quase um quesito de sobrevivência no mundo moderno. Sem contar que somos influenciados por uma ética que nos isenta dessa responsabilidade. Jonathan Sacks, em seu livro “Para Curar Um Mundo Fraturado”, diz que nossa geração se perdeu na ética da responsabilidade, foi confundida. Uma geração endurecida, com pouca sensibilidade, que não se move em direção aos que sofrem. Julgamos os problemas extensos demais para agirmos, preferimos dar de ombros, dizer que não é conosco. Achamos que nossas ações jamais farão diferença e mesmo que tentássemos, continuaríamos com a mesma sensação de que tudo teria sido em vão. Por isso em troca de impostos delegamos nossa responsabilidade ao governo, que tem uma legislação fria, sem envolvimento pessoal, sem rosto, sem amor, sem humanidade.

Inevitavelmente, quando pensamos nesse mundo ideal, mais justo, sem covardia, sem crueldade, pensamos numa espécie de perfeição e isso nos intimida. Talvez sejamos receosos com o conceito de perfeição, porque o colocamos num lugar inalcançável e isso nos traz a consciência de que somos inadequados. Gosto muito como Jesus de Nazaré tratou da questão da perfeição, falando no Evangelho de Mateus, no capítulo 5: “Porque Deus faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir a chuva sobre justos e injustos. Portanto, sede vós também perfeitos, como perfeito é vosso Pai celestial”. A ideia de perfeição ensinada por Jesus de Nazaré, traz a certeza de que é para nós humanos, pois não é a ausência do delito, da transgressão, do erro. É a manifestação da bondade e generosidade, mesmo diante da maldade e injustiça; é a capacidade que temos de lidar com pessoas boas ou não, com pessoas justas ou não, sem perder a doçura. Isso é muito bonito e confortante, bonito porque nos torna pessoas generosas, confortante porque sabemos que aqueles a quem amamos, mesmo manifestando suas fraquezas, estarão guardados pela graça e misericórdia.

Quando cheguei em casa naquela noite, algo me incomodava, sentia um desconforto tremendo, mas não sabia bem o que era; só sabia que existia em mim um sentimento de impotência, a consciência de que, na verdade, eu não seria capaz de criar um mundo melhor. O duro é que sei que falhei, poderia ter feito alguma coisa, mesmo que pequena, quem sabe um gesto de esperança que fortalecesse o coração daquela garotinha. Poderia ter dado um sinal da generosidade humana, deixá-la em casa, ou, comprar as poucas peças de bijuterias que sobravam naquela caixinha; alguma coisa que estivesse ao meu alcance. Deitei-me, fechei meus olhos e continuei me vendo parado ali, naquele lugar, sem ação, perdendo a oportunidade, não de criar um mundo melhor, mas de ser naquele momento, o melhor do mundo para aquela criança.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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