Crônicas

Maloca querida

Gosto do nosso tempo, desse mundo em movimento, do avanço tecnológico, da modernidade. Me traz sensação de novidade. Somos seres sedentos por novidades. Sem contar com o tremendo conforto e praticidade que tem sido gerado. Alguns lembram da TV preto e branco, Colorado RQ. Tinha um botão para ligar, outro para mudar os canais e um círculo para sintonia fina. Uma queda de energia e só voltaria novamente a imagem depois de vários minutos, quando as válvulas esfriassem. A pessoa teria que ter paciência e um curso para operar as TVs da época. Sou do tempo em que a máquina de calcular Texas Instruments Ti, de visor vermelho luminoso, era coisa de outro mundo, e a telefonia celular, produto cinematográfico de ficção científica.  Precisamos concordar que a modernidade tem trazido coisas boas! Mas confesso que assim como tenho sido beneficiado, tenho sofrido apertos no peito.

Comecei a ter paixão por cinema aos 10 anos de idade. Meus pais nos levavam para sessões matinais aos domingos e essas memórias me alimentam até hoje. Lembro-me da sensação de estar em um lugar que parecia ser melhor do que eu, especial. Haviam pessoas ali, que mesmo sem eu conhecer, me causavam uma espécie de admiração. Se comportavam como se estivessem no seu lugar comum. Eu percebia pela descontração, a forma como conversavam, riam e comiam pipoca. Lembro-me quando passei pela primeira vez na frente daquele cinema que tinha sido transformado em um pequeno shopping. Senti uma coisa esquisita, era como se tivessem invadido sem autorização, um lugar que era meu, de muitas das minhas histórias.

Semana passada recebi a mensagem de um amigo. Ele estava no aeroporto de Fortaleza, indo participar de um evento de inauguração da Livraria Jaqueira, na cidade do Recife. A livraria é uma das coisas que tem sofrido pelas transformações do nosso mundo. Tem quem arrisque dizer, que caminhamos para o completo desaparecimento do livro de papel e consequentemente das livrarias. Quando meu amigo me contou alguns detalhes daquele projeto, sem conhecer seus idealizadores, imaginei que foram movidos pela necessidade de cobertor, para o frio soprado sobre a vida dos muitos amantes das livrarias. Como a música é um dos alimentos da minha alma, lembrei-me de uma canção que aprendi na infância, “Saudosa Maloca”, sempre cantada por minha mãe, uma fã confessa de Adoniran Barbosa, que diz:

Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mas um dia, eu nem quero me alembrá
Veio os homis c’oas ferramenta
Que o dono mandô derrubá

Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei
Os homis tão cá razão
Nós arranja outro lugar
Só se conformemos quando o Joca falou
Deus dá o frio conforme o cobertor

Construímos nossas “MALOCAS” e a modernidade com suas ferramentas tentam “DERRUBÁ”. Mas como “JOCA FALOU, DEUS DÁ O FRIO CONFORME O COBERTOR”. Essa nova modalidade de livraria, tem grandes chances de virar uma espécie de conceito para muitas outras que virão. Enxergo como um cobertor que veio para nos agasalhar do frio que nos ameaça. Nossa “MALOCA QUERIDA”, lugar de família, de conversas, do encontro com o outro, que nessa sociedade líquida, como disse Zygmunt Bauman, sem vínculos, de laços frouxos, se transformou num lugar de amizade e comunhão. Todo lugar do encontro com o outro, gera um estado de maravilhamento. No Livro de Provérbios, no capítulo 30, falando do encontro entre duas pessoas, diz: “Há três coisas maravilhosas demais para mim, sim, quatro que não entendo: O caminho da águia no céu, o caminho da cobra na penha, o caminho do navio nomeio do mar, e o caminho de um homem com uma mulher”.

A livraria tem um poder invisível. Pierre Bourdieu, sociólogo francês, chamou isso de “poder do simbólico”. Não se trata simplesmente de um lugar onde se vende livros, mas de um lugar mágico e misterioso. Onde existe o ambiente da amizade e da comunhão, existe também a presença do mistério e da magia. O apóstolo Paulo, na sua Carta aos Efésios, falando sobre a amizade e comunhão, disse: “Grande é este mistério”. Mistério que traz uma linguagem que não conseguimos explicar, mas nossa alma sente e entende.

Acredito que foi isso que Cecília Meireles sentiu, na ocasião em que foi enviada como jornalista a Ouro Preto (MG), não só em relação aos escravos, mas em relação a sua própria experiência de vida. Na obra “Romanceiro da Inconfidência”, fruto daquela vivência, tem um trecho de um poema, que diz:

“Antiguidades de Nimes

em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette

saltando vastas fronteiras!

Ó vitórias, festas, flores

das lutas da Independência!

Liberdade – essa palavra

que o sonho humano alimenta:

que não há ninguém que explique,

e ninguém que não entenda!

Não sei quem são, nem os nomes das pessoas que sonharam a Livraria Jaqueira, mas sei que são pessoas que entendem e acreditam no mistério do encontro. Preciso reconhecer esse benfeito projeto e esse bem-feito a mim que sou amante da livraria. Pois em algum lugar, não sei se na cidade do Recife, existem pessoas a quem devo gratidão. Muitíssimo obrigado pela ideia de preservação da nossa “MALOCA QUERIDA”!

Flávio Leite.

Obras citadas nesse texto *Ao clicar em uma das imagens abaixo e efetuar compra através destes links, você contribui para manter este projeto no ar.

ADONIRAN BARBOSA – O POETA DA CIDADE
ZYGMUNT BAUMAN – MODERNIDADE LÍQUIDA
CECÍLIA MEIRELES – ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA
CECÍLIA MEIRELES – POESIA COMPLETA (2Vols)

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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