Crônicas

Encontro com a minha humanidade

Tem dia que a vida desliza mais facilmente, existe um conforto de alma presente, um sentimento de refrigério ou até parece que estamos funcionando melhor. Mas existe também aquele dia de desconforto, que nos falta alguma coisa, não identificamos o que é, tem algo errado, existe um sutil sentimento de preocupação. E foi em um desses dias no qual eu me sentia desconfortável de alma, que uma amiga me pediu para que eu dissesse o que mais trazia sentimentos de bem-estar.

Fui pego de surpresa! Disse o que me veio à cabeça pois não estava preparado para aquela pergunta, e não conseguia encontrar, nem de longe, mesmo que incompleta ou superficial, uma resposta coerente para aquela pergunta. Depois que saí dali, sabendo que não tinha sido honesto com ela nem comigo mesmo, continuei com aquele pensamento, refletindo sobre o que realmente poderia me trazer bem-estar – até porque eu estava precisando muito naquele dia.

Mesmo cercado por muitas ideias, definições e teorias sobre bem-estar, não estava satisfeito com o que vinha à minha cabeça, queria apreender na prática, queria uma resposta que viesse dos porões da minha existência – do íntimo do meu ser – que explicasse aquele sentimento de desconforto que estava sentindo naquela manhã. De tanto pensar, me veio algumas lembranças da minha infância. Pouco a pouco, à medida que surgiam as memórias, fui sendo tomado por outros ares, sensações de conforto, de bem-estar; percebi uma mudança no meu estado de espírito, senti um refrigério na alma. Tentei discernir o que estava acontecendo comigo e o que me levava a experimentar aquela sensação tão agradável! Foi quando percebi que estava sendo visitado por lembranças e sentimentos de AMIZADE.

A AMIZADE tem esse poder: nos leva ao estado original da existência, nos regenera à imagem e semelhança de Deus, funciona como uma espécie de regulador da nossa humanidade, nos torna mais gente, nos faz funcionar melhor, afasta tristeza, aplaca medos, cura nossas sensações de mal estar.

Temos essa necessidade de companhia, pois nos sentimos seguros. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, diz no seu livro Comunidade: “Comunidade associa-se a uma sensação boa, transmite a ideia de proteção, é um novo nome para paraíso perdido; mas um paraíso que ainda buscamos, e que esperamos encontrar”. Gosto da forma como Larry Crabb, escritor cristão, professor da Universidade do Colorado, fala sobre isso no seu livro O Lugar Mais Seguro da Terra, ele afirma que, juntos nos sentimos mais completos e seguros. Eu acrescentaria às palavras de Zygmunt Bauman que, estarmos juntos não só é o paraíso perdido, mas nos expande, nos faz transcender, nos aproxima de Deus. Não tenho nenhuma dúvida que a amizade nasceu no coração de Deus. A história de Deus e os seres humanos está repleta de AMIZADE. A Bíblia diz que Deus criou o homem, a mulher, os colocou em um belo jardim e vinha todas as tardes conversar com eles: isso é amizade! O grande valor da vida estava na amizade e eu poderia narrar várias passagens Bíblicas falando sobre isso, como por exemplo, Abraão ficou conhecido como “amigo de Deus”; “Deus falava a Moisés como quem falava a um amigo”; o Salmo 133 diz que a amizade é comparada a própria unção e benção de Deus; o Evangelho de Mateus 18 diz que o que traz a presença de Deus, não é a religião, mas a união de amigos, no Evangelho de João 15 diz que Jesus, quase no final da sua vida, falou para os seus discípulos: “Já não vos chamo servos, mas tenho-vos chamado amigos”.

A Bíblia ainda diz que humanidade vem do cuidado com o outro. A primeira vez que a palavra HUMANIDADE aparece na Bíblia – que é adamah no hebraico, foi no encontro de duas pessoas. Interessante pensarmos que, só depois da possibilidade da amizade, da lealdade, do perdão, da empatia, da solidariedade, é que nos tornamos humanos.

Tenho saudade do dito popular português, muito pronunciado quando eu ainda era criança: “Mais vale amigo na praça, que dinheiro na caixa”. Nosso tempo tem trocado amizade por coisas e isso nos deforma. Martin Buber, pensador judeu, escreveu o clássico Eu-Tu e Eu-Isso, nos advertindo do perigo da impessoalidade. São tantas pessoas sofrendo na alma, com medos incontroláveis! A Bíblia diz que o amor lança fora todo medo e amor é fruto de amizade.

. O historiador americano Christopher Lasch, disse no livro O Mínimo Eu que, na sociedade pós-moderna só sobraria “eu”, o outro não seria mais sentido nem percebido. Estamos adoecidos e precisamos de cura. Como disse Shelley Taylor, no seu livro Laços Vitais, a amizade regula nossa biologia, e assim como necessitamos de comer e beber, precisamos de amizade para termos uma vida saudável.

A amizade traz beleza e a beleza nos torna dóceis, amorosos, generosos; talvez a amizade fosse o antídoto para a cura da violência, provavelmente o melhor programa para combatê-la. Aqui vai um conselho para quem quer saúde e para quem quer promover vida: Plante amizade, promova amizade! Se você me perguntasse por onde começar, eu diria, fuja da indiferença. A indiferença é a raiz de todo mal, o remédio para continuarmos vivendo com saúde de alma é nos importarmos uns com os outros. Cecília Meireles, no poema Como Se Morre De Velhice, denuncia a indiferença como a maior causa de morte do nosso tempo:

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.
Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.
Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.
Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.
De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.
Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.

Minhas lembranças estavam cheias de pessoas queridas! Então enxerguei que havia frequentado uma escola de amizade, era uma esquina perto da casa em que morávamos; mais ou menos dez meninos entre 10 e 15 anos de idade, aprendendo sobre empatia, lealdade, cumplicidade, tolerância, perdão. Batizamos aquele lugar de “Esquina do Pecado”. Meu pai não gostou muito quando viu pichado na parede em letras garrafais, a frase: “Esquina do Pecado” e foi difícil convencê-lo de que ali era um bom lugar. Saudosa e tão querida esquina, “Esquina do Pecado”, que na verdade, de pecado não tinha nada, era apenas um despretensioso lugar de encontro com Deus e com a nossa humanidade.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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