Crônicas

É preciso coragem para amar

Aquela imagem mexeu comigo, senti um aperto no peito e logo soube que estava sendo tomado por um sentimento caro, porque desejava empenhar minha própria vida. Tudo porque recebi uma foto no grupo de WhatsApp da família. Meus pais tomando açaí na companhia de minha irmã, que mora cerca de 800km de distância, por isso uma oportunidade rara. A captura do momento perfeito, eles com saúde, se deliciando da presença da filha primogênita, absortos pela beleza daquele instante sagrado. Cena de felicidade, pois concordo com nosso grande escritor carioca, João Guimarães Rosa, que disse: “Felicidade se acha em horinhas de descuido”. Aquela foto retratava a felicidade, meus pais em horinhas de descuido, distraídos, despreocupados, sem nenhuma pretensão, apenas desfrutando daquele momento presente. Anselm Grün, teólogo alemão, chama isso de eternidade; para ele, eternidade é um tempo presente.

Quão preciosa imagem! Perecia estar cuidando para que nada roubasse a felicidade. Somos família e sabemos quantas batalhas já foram travadas, e ver meus pais, ali, sem nenhuma dor, por menor que fosse, me trazia paz. Queria ter o poder para perpetuar aqueles olhares de contentamento, congelar aquele estado de prazer e ausência de sofrimento. Preservar aquele momento, seria uma forma de proteger e cuidar. A ideia de congelar, seria a tentativa de não correr riscos. Não queria que meus pais fossem alcançados pelas adversidades da vida. Eu não queria sofrer. Foi quando me dei conta de que não seria possível, pois aquele aperto no peito, aquele desejo de cuidar com a minha própria vida, era a presença do amor.

O amor é uma força impetuosa, que nos coloca por completos na arena da vida. Se você quiser viver de verdade, tem que amar. Quando Jesus disse, “aquele que perder sua vida achá-la-á”, ele não estava nos orientando a nos esquivar da vida, a não viver ou não desfrutarmos dos prazeres da vida; ao contrário, estava nos orientando a vivermos com intensidade, e a intensidade da vida está no amor.

Eu gosto de substituir a palavra “perder”, pela palavra “gastar”. Aquele que não gastar sua vida com intensidade, com beleza, com amor, perdê-la-á. Até porque a vida é para ser gasta, não se pode economizar vida. Você não pode dizer: Vou guardar cinco anos da minha vida, para vivê-la quando estiver mais velho. Não temos como economizar vida. Sêneca disse que enterrar-se não é conservar-se, logo, toda tentativa de não amar para não correr riscos, é enterrar-se. Quando amamos, gastamos nossa vida de verdade; somos colocados à prova, incendiados, acrisolados, purificados. Cantares, no capítulo 8, diz: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte. As suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, seria de todo desprezado”. Aqui temos a solicitação de uma mulher, ela pede ao seu marido que a ame. Ela diz que a única forma de atravessar as estações das águas, de resistir aos vendavais da vida a dois, e sair do outro lado mais fortes, é através do selo do amor. Podem cair as chuvas, transbordar os rios, mas, as muitas águas não conseguirão apagar o amor, ao contrário, o amor ficará mais puro e visível. Ela diz que o amor é sua maior preciosidade e cara possessão, que jamais será negociado. Se alguém fizer a proposta de trocar seu amor por todos os bens de sua casa, não será aceito, “será de todo desprezado”.

O amor é forte como a morte, não há como amar e não correr riscos, não há como amar e não sofrer. O apóstolo Paulo, falando sobre o amor, disse: “O amor não procura seus próprios interesses, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. O mundo antigo incluía como pressuposto de felicidade, o sofrimento; uma pessoa para ser feliz precisaria saber lidar com o sofrimento.

No nosso tempo ser feliz significa fugir do sofrimento. Isso é um engano! Muitos estão perdendo a oportunidade de viver e talvez seja por isso que muita gente tem fugido do amor. Quando me refiro ao amor, não entendam como movimento artístico do século XVIII, conhecido como romantismo. O amor romântico não existia na tradição judaica, foi uma invenção que cresceu na Renascença, reforçada pela indústria do cinema. O amor real acontece nas realidades da vida. Quando amamos nos vulnerabilizamos, corremos riscos, nos sacrificamos, estamos expostos ao sofrimento. Você pode estar questionando: Se é assim, qual a vantagem de amar? Fomos feitos para o amor, o amor nos revela, nos eterniza, nos faz existir. Sei que muita gente sofre por amor. Tenho amigos que amam filhos que já partiram, que sofrem muito com a ausência, mas quando caem em si, percebem que foram agraciados. Sofrem porque existe uma preciosa presença. O amor se eternizou no tempo em forma de saudade, são lembranças preciosas que provam que valeu a pena. O amor selou algo que jamais deixará de existir. É verdade que o sofrimento quase dilacera a alma, mas a prova da fortaleza do amor é que encontramos forças para continuar vivendo, sentindo prazer naquela ausência que faz parte e é tão presente em tudo que somos.

Meu respeito, reverência e admiração a todos vocês que sofrem de amor, à minha amada mulher que ainda sofre pela ausência de seus pais, à minha recente amiga Natália,  aos meus queridos amigos e irmãos Flávio e Isabel, ao meu estimado primo Osvaldo Facundo, que tive o privilégio de conviver quando morei na cidade do Recife, ao meu amigo de livraria César. A todos vocês que sofrem de amor, e que um dia pelo testemunho de suas forças, consolarão os que precisam ser consolados.

Continuarei sentindo aquele aperto no peito, com desejos de cuidar empenhando a minha própria vida. Vou trocar a tentativa de aprisionar meus pais naquela fotografia, pela coragem de amá-los de verdade. Optarei por continuar acreditar na força impetuosa do amor, que faz a vida valer a apena, eternizando o prazer por mais efêmero que seja o tempo. Continuarei permitindo ser mexido na alma, mesmo sabendo que corro grandes e sérios riscos. A minha oração por todos nós, é: Deus, nos dá coragem para amar, ensina-nos a gastar nossa vida com beleza.

Flávio Leite


REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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