Crônicas

Conversa de gente grande

Dia desses fui surpreendido por uma conversa de gente grande. Meu neto, nunca havia me falado com aquele tom ameaçador, quando disse sem titubear: “Vovô, se você deixar minha avó, não serei mais seu neto; estou avisando!” Olhou para a minha esposa e disse a mesma coisa. Sinto-me uma pessoa de boa sorte, tenho um filho, duas filhas, dois netos, dois genros e uma nora, frutos da paixão da minha mocidade, que como toda relação, sofreu dificuldades ao longo do caminho. É verdade que tivemos motivos para nos abandonarmos, mas isso não aconteceu, o que me faz um homem afortunado. Sempre comento com minha esposa que tenho alguns amigos que foram melhores maridos e melhores pais do que eu, mas não tiveram a minha mesma sorte de permanecer com suas histórias e álbuns de família.

Vivo em uma geração marcada pelo abandono e sempre estive ligado a atividades onde me envolvo com esse tema, mas confesso não conseguir lidar bem com isso, sofro quando assisto. Meu neto estava sofrendo e percebi que ele partilhava o meu mesmo sentimento de não lidar bem com situações de abandono. Ele queria desabafar, me contar a história de um amiguinho seu, que o pai havia deixado a casa. Fiquei triste por ver o desapontamento do meu neto Arthur e saber que não seria o último daquela natureza.

Não sei se esses abandonos começaram com o exacerbado desejo que temos de coisas novas. Existe uma sutil necessidade inerente da nossa sociedade de consumo de termos sempre coisas novas. Ítalo Calvino, premiado escritor italiano, escreveu o livro As Cidades Invisíveis, onde narra a crise do imperador dos tártaros Kublai Khan, por não conhecer as cidades que havia conquistado. O veneziano mercador Marco Polo, recebe a missão diplomática de visitar e descrever com precisão todas as cidades. Existe uma cidade que eu gosto muito, Leônia, porque retrata o nosso tempo de abandono. Naquela cidade a população acorda e quer coisas novas todos os dias, o orgulho dos moradores é olhar a quantidade de coisas que foram jogadas fora, para dar lugar às novas. Permitam-me colocar um trecho do livro na íntegra: “Mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas, vendidas, compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. O certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover os restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção, ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem, o prazer das coisas novas e diferentes, e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma impureza recorrente”.

Todo ambiente de abandono me traz dor, mas existe um que me causa chateação, a religião. Não deveria ser um lugar de afastamentos, mas basta haver dissabores doutrinários, para justificarmos nossa fuga. Sofro, sinto falta dos meus amigos, irmãos de jornada e não abriria mão de um amigo por doutrina ou ortodoxia, por mais convincentes que fossem. Não se escandalizem comigo os religiosos cristãos, pois não encontro em Jesus de Nazaré, nenhuma orientação desse tipo, pelo contrário, enxergo uma orientação para não abrir mão de pessoas. O evangelho de Mateus narra, que por não ter muito tempo, Jesus havia dito a seus discípulos que não assistiria os estrangeiros, apenas os da casa de Israel.  Quando chegaram nas regiões de Tiro e Sidom, uma mulher estrangeira começou a gritar: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim. Jesus ficou calado, então seus discípulos disseram: Ela está fazendo um escândalo, despede-a, fala que é só para os da casa de Israel. Jesus vai até a mulher e diz que foi enviado apenas para as ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela se coloca de joelhos e diz: Senhor, socorre-me! Jesus respondeu: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos. A mulher fragilizada, insiste: Eu sei Senhor, mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos; Senhor, dá-me apenas as sobras.

Eu fico imaginando a reação de Jesus, como deve ter olhado para seus discípulos e dito: Sabe aquela história da regra, da doutrina que eu falei lá atrás, de que é só para os da casa de Israel? Esqueçam! Essa mulher é muito mais importante do que qualquer regra ou doutrina. O texto diz que ele acolheu aquela mulher com amor. Jesus sempre preferia as pessoas a qualquer outra coisa.

Voltando ao abandono, eu queria ter o poder de trazer a cultura futebolística para dentro das nossas famílias, porque já presenciei irmão abandonando irmão, amigo abandonando amigo, marido trocando de esposa, mas nunca presenciei alguém abandonando ou trocando seu time por alguma decepção, por maior que fosse. Não podemos impedir que alguém nos abandone, mas podemos lutar para não abandonarmos. Já que não tenho poder para mudar as coisas, quero trazer uma instrução que julgo de fundamental importância, para aqueles casais donos e responsáveis por suas famílias, que precisam fugir da cultura do abandono. Primeiro respire devagar, procure entender quem você é, o que é a sua vida. Coloque seu pensamento para funcionar; somos as nossas memórias. Nossa história é aquilo que conseguimos contar com o auxílio de nossas lembranças. Pense no seu romance, o que o atraiu, como tudo começou, o preço que foi pago, quantas lágrimas, quantas conquistas, quantos risos. Pense se vale a pena jogar fora seu álbum de fotografias. Aí só depois de acender suas lembranças, seus valores, você vê o que vai fazer. A Bíblia diz que “de tudo o que se deve guardar, guarda o teu pensamento, porque dele procede todas as fontes da vida”. Nunca esqueça, somos as nossas memórias.

Uma vez falando sobre isso, uma amiga que seu pai sofre de Alzheimer me questionou, dizendo: “Meu pai não lembra mais quem eu sou, você está querendo dizer que todo meu esforço, para conviver com ele é em vão? Que ele não tem mais memória, por isso já não sou mais sua filha?”. Constrangido por aquela dor da minha amiga, falei para ela o seguinte: Só tenho uma certeza, que seu esforço por maior que seja, enquanto houver boas memória na sua vida, nunca será vão. Ele pode, nesse momento, não estar mais capaz de ser seu pai, mais vejo no seu olhar que você continua sendo uma filha querida.

Na hora da tentação precisamos esquadrinhar nossa história, quem somos. A Bíblia diz que Jesus sabia quem era, de onde tinha vindo, o que estava fazendo aqui, para onde estava indo, e, por isso não abandonou, amou os seus até o fim. Veja que interessante, Jesus gostava de pão, foi chamado de glutão, comedor de pão e tudo que fazia tinha pão no meio. Isso é tão obvio, que Jesus só foi reconhecido por aqueles dois discípulos de Emaús, depois que partiu o pão. Eu acho que disseram um ao outro: Esse jeito de partir o pão nós já conhecemos, é Jesus! Veja bem, Jesus passou quarenta dias no deserto sem comer e teve fome, veio o tentador e disse: Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus respondeu: Não só de pão viverá o homem. Jesus não estava dizendo que pão era ruim, até porque gostava muito de pão. Estava dizendo que mesmo sendo pão muito bom, não poderia apagar o valor da sua história. Existia uma coisa muito preciosa na sua vida e não podia ser negociada: sua aliança com o Pai.

Tomei aquela fala como uma coisa séria e aprendi que conversa de gente grande também mora no coração das crianças. Talvez foi por isso que Jesus falou aos seus discípulos para deixarem vir a ele as criancinhas, porque deles é o reino dos céus. Apesar do tom ameaçador, concordei com tudo que meu netinho de sete anos me disse. Nos abraçamos e ali fizemos um pacto, porque também aquele era o meu desejo. Ficou muito clara a necessidade daquela aliança, pois naquele dia, Arthur tinha uma missão, mostrar o que realmente importava e acender no meu coração o que jamais deveria ser apagado.

Flávio Leite


REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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