Crônicas

Meu querido, meu velho, meu amigo

No mês passado comemoramos os noventa anos do meu pai. Se alguém arriscasse dizer sua idade, falaria: ele tem mais ou menos uns setenta anos, com muita saúde! Homem de olhar e fala firmes, de pensamentos claros, com um carisma envolvedor. Planejamos tudo: eu, meu irmão e minhas duas irmãs. Não sei de onde tiramos a ideia, de que falaríamos o que sentíamos por ele, através da bela canção poética de Roberto Carlos, Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo. Lá estávamos nós, numa linda noite na cidade de Tianguá, Ceará, no Restaurante dos Piratas, participando de um karaokê com todos os clientes. Era nossa vez de cantar, chegou a hora, agora seria só soltar a voz e comunicar o quanto éramos gratos e reconhecedores de quem ele era.

A voz embargou, eu não conseguia segurar as lágrimas, olhei para o lado numa tentativa de me recompor, mas foi completamente inútil, meus irmãos estavam chorando. Eu estava diante de um homem de noventa anos de idade, que por mais firme e conservado que fosse, existiam sinais da jornada, os passos já não eram tão velozes, já haviam rugas marcadas pelo tempo. Meu querido pai, tantas histórias juntos, muitos sonhos, tantas lutas, momentos de risos, de choros, cumplicidades, perdas. Sua serenidade nos olhando naquela noite dizia algo, talvez um pensamento de que valeu a pena se gastar com tanta intensidade na estrada da vida, ele tinha colocado no lugar do tempo gasto, filhos, filhas, netos e uma história de amor com minha mãe, mulher da sua mocidade.

Friedrich Ruckert, poeta alemão do século dezoito, disse em um poema, que apesar de envelhecermos, a passagem dos anos se torna uma coisa alegre, quando encontramos no lugar do tempo gasto, uma coisa mais preciosa crescendo. Acredito que quando Jesus disse, “aquele que perder a sua vida achá-la-á”, a última coisa que queria dizer, era, “prive-se da vida, não desfrute de algumas belezas da vida”; o que Jesus queria dizer era exatamente o contrário, “viva com intensidade, com beleza, colocando no lugar do tempo gasto, coisas que valerão a pena serem contempladas no futuro”. Fica aqui um alerta, cuidado como você está “PERDENDO” a sua vida. Gosto de substituir a palavra perdendo pela palavra gastando, porque você não tem como economizar a vida, vida se gasta de qualquer maneira, inclusive você jamais poderá guardar algumas horas ou dias da sua vida para viver depois. Talvez Sêneca quis dizer isto, quando falou: “Enterrar-se não é conservar-se”.

Meu pai estava ali, com seus cabelos brancos, com rugas marcadas pelo tempo, como bem diz a canção de Roberto Carlos:

Esses seus cabelos brancos, bonitos
Esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, num grito
Me ensinando tanto, do mundo
E esses passos lentos, de agora
Caminhando sempre comigo
Já correram tanto na vida
Meu querido, meu velho, meu amigo
Sua vida cheia de histórias
E essas rugas marcadas pelo tempo
Lembranças de antigas vitórias
Ou lágrimas choradas ao vento
Sua voz macia me acalma
E me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo…

Não sei que tipo de pensamento fez meu irmão e minhas irmãs chorar, mas bem sei o que se passava na minha cabeça, a razão por que chorei. Naquele instante enquanto cantava, muitas imagens surgiram no meu pensamento, tive lembranças de um passado aparentemente tão próximo, mas que agora enxergava de forma tão diferente, com outro juízo. Contemplei muitos equívocos daquele tempo em que eu ainda era bem jovem, quando não conseguia enxergar a fragilidade do meu pai, não percebia o quanto ele era humano, não dispensava nenhuma falha, afinal de contas, ele era o pai, tinha que acertar sempre, precisava entender tudo com a minha lógica, segurar qualquer onda. E, agora, estava ali diante dele, eu com cinquenta e quatro anos de idade, depois de muitas experiencias, como pai, como marido e como avô, querendo através daquela canção, não só dizer quanto o amava e que ele estava de parabéns, mas, principalmente, dizer que eu não era mais aquele menino sem compreensão, sabia quem ele realmente era, que com o passar do tempo o enxergava melhor, que tinha novas lentes, uma nova forma de vê-lo, e então, pedir desculpas, perdão, me retratar, dizer o quanto fui descuidado, incompreensivo, injusto, que agora entendia seu esforço, o preço que havia pago, o quanto tinha ralado, dado sua vida em nosso favor, que ele tinha feito o que sabia e o que podia fazer.

Lya Luft, escritora gaúcha, teve essa mesma experiência, a necessidade de revisitar seu passado e ressignificá-lo. Ela fala no seu livro ‘Perdas e Ganhos’, de um momento na sua adolescência, em que não admitia nenhuma fraqueza no seu pai, que o enxergava como um Super-Homem, mas, quando já era uma mulher adulta, percebeu o quanto havia exagerado nas suas cobranças, tinha sido injusta com ele, e, reconhecendo, diz: “Meu pai era apenas gente como eu, fez o que sabia, o que podia fazer”.

Essa coisa de filho não enxergar o pai como deveria, já é algo muito antigo, a “Parábola do Filho Pródigo”, relatada no Evangelho de Lucas a mais de dois mil anos atrás, narra a história de um pai e seus dois filhos, a maioria dos comentaristas colocam o foco da mensagem no filho mais novo, que dissipou todos os seus bens e foi morar em um país distante. Eu gosto de pensar que a mensagem central da parábola, não é a transgressão do filho, mas a beleza como o pai gasta sua vida. Seu filho mais novo sai de casa e ele continua acreditando no melhor, não desiste e começa a engordar um novilho, pois mesmo sem nenhuma garantia, alimenta a esperança de um dia poder fazer um grande churrasco, celebrando a volta do filho que estava perdido. Mas o melhor aconteceu, aquele filho olhou ao seu redor e sentiu falta do pai. Percebeu que precisava revisitar aquele lugar, agora com um novo olhar, uma nova consciência. O texto diz que ele caiu em si, percebeu quem realmente era seu pai, e disse: “Vou voltar para a casa do meu pai e pedi-lo para que me receba como um de seus trabalhadores”. O restante da história não vou contar, você precisa lê-la, tem um final lindo!

Assim como esse filho pródigo da parábola, precisei revisitar a vida do meu pai, para encontrar algo que estava ali, sempre tão presente, tão visível, mas que eu não conseguia perceber, e que agora, depois de uma longa jornada, chegar finalmente, ao lugar que sempre estive, mas que agora, o enxergava como se fosse pela primeira vez. Meu pai está de parabéns, cheio de créditos, é merecedor do nosso reconhecimento.

Lembrei-me das palavras da escritora americana Brené Brown: “O crédito pertence a ele, o homem que está por inteiro na arena da vida, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue”. Olho para a minha história e vejo meu pai, de pé, na arena da vida, com seu rosto manchado de poeira, suor e sangue. Nietzsche o chamaria de homem espiritual, pois disse: “Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito”. Que momento precioso, de grande valor, posso afirmar com convicção, que quanto ao meu pai, está tudo resolvido, ressignificado e corrigido, não me entendam mal, não foi de forma mágica e instantânea, foi através do tempo que me foi conferido. Aquele pai que eu enxergava com olhar de um passado distorcido, deformado pela inexperiência de quem acabara de partir para a longa exploração da vida, estava ali, era o mesmo, mas eu o enxergava como que pela primeira vez.

T.S. Eliot, disse: “E, ao final de nossas longas explorações, chegaremos, finalmente, ao lugar de onde partimos, e o conheceremos então, pela primeira vez”. Necessito de muitos outros momentos como esse, momentos que revelam novidade; desejo recontar muitas histórias da minha vida, quero ressignificá-las, transformá-las, e depois de ter percorrido grandes jornadas, chegar, finalmente, a lugares de onde parti e enxergá-los como se fosse pela primeira vez.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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