Crônicas

Apesar de tudo, estou cheio de gratidão

Tenho um amigo músico a quem muito admiro e ele é um apaixonado por crônicas poéticas. Nunca me pediu nada, mas resolveu pedir de forma muito gentil, para que eu construísse um texto sobre gratidão. Feita a promessa que escreveria, fiquei aguardando aquele momento ideal para iniciar essa tarefa. Não queria escrever só para cumprir o que havia prometido. Ao escrever, me delicio quando sou surpreendido por revelações que estavam em lugares não explorados da minha interioridade. Apesar de não existir nenhuma inimizade da minha alma comigo mesmo, essa experiência traz sentimentos de reconciliação. É como se minha alma quisesse dizer algo que não estou dando atenção e só depois resolvo ouvir de verdade. Quando digo que não existe inimizade da minha alma comigo mesmo, é porque foi de forma voluntária e consciente que trilhei o caminho que me fez chegar até aqui e sou sem nenhuma sombra de dúvidas, alguém muito afortunado. É verdade que não consegui conciliar bens materiais com os valores que construí; poderia ter conciliado, teria sido muito bom, muitos conseguem, mas minhas preferências pelas ciências humanas, pelas filosofias, me levaram a outros lugares. Tenho muitas coisas caríssimas que levo na minha bagagem, algumas delas, tesouros que me torna um homem muito rico. Um desses tesouros é essa impressão de que quando estou em conflito, não compreendendo alguns porquês, numa profunda necessidade de conciliar minhas crenças, sou transportado para lugares da graça, onde sou capaz de fazer as pazes comigo mesmo.

Estou a 350 quilômetros de casa, vivenciando uma das maiores dores que já senti nesses últimos dias. Sabe quando o sofrimento é seu, mas na verdade está insuportável porque vem da dor sofrida por pessoas a quem você ama muito? A impressão que temos é que o sofrimento vem em dobro. Parece irônico, porque depois que meu amigo me fez aquele pedido, já experimentei várias situações de reconhecimento pelas coisas valorosas que me aconteceram, mas foi exatamente nesse momento de sofrimento, que fui levado a escrever sobre gratidão. Agora atribulado, perplexo, com alguns conflitos, fui transportado para aquele doce lugar da graça.

Fui levado a uma memória que me fez lembrar do seu Assis, um homem de aproximadamente 50 anos de idade, alcoólatra, morador de rua, que conheci no centro da cidade de Fortaleza. Ele sempre falava do amor e falta que sentia pela família. Já tinha tentado voltar para casa algumas vezes, mas seu sofrimento causado pela dependência no álcool, levava muita dor aos que o amavam e ele não suportava aquilo. Uma noite me falando sobre suas dificuldades, expressou uma coisa que carrego no meu coração até hoje, pois disse: “Sou um homem de muita sorte. Todos os dias agradeço a Deus pela vida que tenho”. Fiquei surpreso com aquela afirmação. Não me julguem mal, eu estava diante de um homem que, aos olhos da maioria das pessoas, não tinha nenhuma dignidade humana. Seu Assis morava na rua, não negava seus medos, suas carências, a falta que sentia de um lugar para lavar suas roupas, tomar um banho ou simplesmente suprir necessidades fisiológicas tão facilmente comuns a todos nós.

Por um impulso quase involuntário, perguntei o porquê daquela gratidão pela vida. Ele me disse: “Porque apesar do sofrimento, sou um homem amado e que ama. Tenho a família que pedi a Deus”. Que lição de vida! Seu Assis conseguia enxergar o que quase ninguém enxergaria naquela situação, por isso estava cheio de gratidão.

Ele me fez lembrar de uma história muito conhecida na Bíblia. Jacó amava Raquel com todas as suas forças e numa viagem da cidade de Betel em direção a cidade de Efrata, estando Raquel grávida e começando a dar à luz, não resistiu e morreu ali. Em meio as dores, quando estava morrendo, pediu a seu marido que colocasse o nome do menino de Benoni, que significava filho do sofrimento, mas Jacó o chamou Benjamim, que quer dizer filho da minha mão direita. Jacó enxergou beleza, mesmo no meio de tanto sofrimento. Viu naquela criança o tamanho da dádiva e graça de um dia ter conhecido Raquel, de ter vivido aquela linda história de amor. Jacó estava cheio de gratidão.

Já entendi esse sentimento de gratidão na pele, porque queria ter convivido mais tempo com o meu sogro e ele faleceu precocemente. Na ocasião daquele sofrimento, resolvi escrever um poema onde um trecho, dizia:

“Como não aceitar essa dor que nos dilacera alma,
Nesse sofrimento tão profundo da tua ausência,
Se experimentamos de tão maravilhosa dádiva,
De termos um dia desfrutado da tua tão doce e marcante presença?”

Preciso confessar uma coisa. Como o homem que conheci na rua, apesar de tudo, estou com forças e boas expectativas na vida! Não posso negar que continuo com aquele sofrimento, que na verdade está doendo muito, porque vem da dor sofrida por pessoas a quem amo e muito quero bem; mas no meio dessa crise, sem compreender alguns porquês e com uma profunda sensação da necessidade de conciliação das minhas crenças, fui transportado para aquele doce lugar da graça, onde fui capaz de fazer as pazes comigo mesmo. Obrigado Deus, por ter o privilégio de sofrer com pessoas que amo, pois, apesar de tudo, ESTOU CHEIO DE GRATIDÃO!

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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