Crônicas

Agraciado pelas lentes da GRATIDÃO

Nem sempre a vida segue como planejamos e nessa semana me ocorreu uma coisa que me causou decepção. Dependendo da decepção, ela nos traz desânimo e foi isso que aconteceu, eu fiquei desanimado. De repente, do nada, me veio à memória uma cena que me aconteceu há quase vinte anos atrás.

Estávamos morando em uma nova cidade, ainda na fase de adaptação e com poucos amigos. Preocupados com nossos filhos, procurávamos preencher todos os espaços com programações em família. Uma delas era a locação de filmes, uma febre naqueles anos. Havia uma pequena locadora perto do apartamento em que morávamos e passamos a frequentá-la regularmente.
Não foi difícil fazer amizade com o atendente, um jovem rapaz competente, muito gentil e agradabilíssimo. Num pequeno espaço de tempo, já conversávamos como dois amigos. Um dia ele resolveu falar como se sentia em relação a sua vida, e disse: “Sinto-me grato por tudo que tenho conquistado. Casei-me com a mulher que amo, tenho um filhinho de dois anos e estou no trabalho em que gostaria de estar”.

Quem já teve a experiência de ir morar fora da sua cidade, em uma cultura diferente da sua, sabe como é difícil, ficamos fragilizados em muitas situações. Eu acho que naquela noite eu estava assim, fragilizado. Não tenho nenhuma dúvida de que a fala daquele jovem me trouxe paz de espírito. A forma como deixava transparecer sua gratidão, parecia se sentir agraciado, experimentando uma espécie de favorecimento. Era como se naquele instante, vivenciasse um estado de contentamento, estava plenamente satisfeito.

Nem todo mundo enxerga a mesma coisa, pois fomos interrompidos pelo dono da locadora que ouvia nossa conversa. Um senhor, também muito gentil, mas que não conseguia ver com o mesmo olhar de gratidão daquele rapaz, e disse: “Estou preocupado com esse seu pensamento acomodado, ele é muito pequeno. Você deveria desejar uma coisa maior”.
O dono da locadora não estava vendo as mesmas cores que via aquele rapaz. As pessoas nem sempre enxergam as mesmas cores, mesmo tendo fotorreceptores idênticos, ou seja, a mesma capacidade genética de enxergar cores. Podemos desenvolver nossas habilidades para termos uma sensibilidade mais apurada e percebermos mais tonalidades. Há quem diga que podemos treinar os nossos olhos.

Imagino que nossa alma tenha uma espécie de fotorreceptor por onde enxergamos o mundo. Nem todos enxergam as cenas da vida com o mesmo tipo de olhar da alma. Se fizermos um teste e colocarmos várias pessoas para vivenciarem as mesmas experiências, nas mesmas condições e circunstâncias, observaremos que os resultados serão diferentes. Teremos vários olhares, com diversas reações. Uns serão mais animados, outros menos animados; uns serão mais otimistas, outros menos otimistas; uns enxergarão com gratidão, outros com ingratidão.

A Bíblia conta a história, que na ocasião da entrada do povo hebreu em Canaã, foram enviados doze espias para fazer o reconhecimento da terra. Quando voltaram trazendo o relatório, dez dentre os doze, disseram: “A terra é boa, os frutos são bons, mas o povo que nela mora é poderoso, somos aos nossos próprios olhos, como pequenos gafanhotos. Seremos devorados!”. Os outros dois, Calebe e Josué, enxergaram outra coisa totalmente diferente e disseram: “Fiquem calados, não desesperem o nosso povo, não é essa a realidade! A terra é extremamente boa! Vai dar certo, estamos muito animados!”.

Alguns dos meus amigos são naturalmente animados; tenho a impressão que vieram ao mundo com pilhas alcalinas. Outros são mais contemplativos e consequentemente, com quantidades menores de movimentos.
Assim como há quem diga que podemos desenvolver nossa sensibilidade para enxergarmos mais tons de cores, acredito que podemos desenvolver nossa sensibilidade, para percebermos a vida com mais gratidão. A gratidão é uma das lentes mais importantes para enxergarmos a vida com beleza. Na minha opinião, quem enxerga com gratidão, deveria ser reconhecido como um bem de utilidade pública. Essa lente tem o poder de aplacar violência, impulsionar solidariedade, promover lealdade. E não só deveria ser reconhecido como um bem de utilidade pública, mas um orientador oficial da Organização Mundial da Saúde, na prevenção de doenças que comprometam a memória. A gratidão tem o poder de conservar as boas memórias. Concordo com Antístenes de Atenas, filósofo grego, quando disse: “A gratidão é a memória do coração”.

Já presenciei e posso testemunhar, que gratidão transforma o que seria um provável final triste, numa coisa feliz. Isso porque a gratidão não anda desacompanhada, sempre suscita a companhia da bondade, generosidade, e, consequentemente, traz a possibilidade do perdão. A gratidão tem um poder espiritual, porque nos leva a um estado de contentamento!

Isso me fez lembrar um ensinamento da tradição hebraica no mundo antigo, que ficou conhecido como a lei do “Servo da Orelha Furada”; que é a seguinte: Se um hebreu ou hebreia, se vendesse para um senhor de escravos, e o servisse durante seis anos, no sétimo ano, seria livre. Receberia uma carta de alforria e uma indenização extremamente generosa. Mas, se esse escravo ou essa escrava, estivesse cheio de gratidão e dissesse: “Não te deixarei, porque estou cheio de gratidão por ti e por tua casa”, ele ou ela, teria sua orelha furada com uma sovela e seria escravo ou escrava daquele senhor e daquela casa para sempre.

A pergunta, é: Que tipo de força impetuosa seria essa provocada pela gratidão, que faria um homem ou uma mulher, se sentir em um estado de contentamento tão pleno, ao ponto de desistir da sua liberdade e de uma generosa indenização?

Quero ser honesto em responder que não sei, não tenho ideia que tipo de força impetuosa é essa. Só sei que, apenas em lembrar daquela cena passada há quase duas décadas, naquela noite em que eu estava fragilizado, precisando de paz de espírito, e que tive minha alma confortada pelo simples testemunho de gratidão daquele jovem rapaz, fui visitado por sentimentos de pacificação.

Preciso concordar com o que disse o filósofo grego, Antístenes de Atenas, pois realmente, aquela cena de gratidão estava guardada na memória do meu coração. Estava lá, mesmo que eu não soubesse, pronta para acalentar a minha alma e mostrar que mesmo estando decepcionado, poderia vencer aquele desânimo e continuar enxergando a vida com beleza.

Flávio Leite.

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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