Crônicas

A necessidade de polir as lentes da beleza

Sabe aquela coincidência que nos causa admiração?

Eu conversava com minha esposa sobre o valor da amizade nesse mundo angustiante. Como necessitamos de pessoas próximas. Gente da nossa confiança, que possamos contar nossos medos e angústias. De repente, recebi o telefonema de uma amiga. Estava aflita. Contou-me ter tido uma grande decepção. Tomou conhecimento de uma violência praticada contra duas crianças. O problema maior, é que compartilhando sua dor com uma colega, foi aconselhada a focar no que é bom. Abandonar essas coisas que causam tristeza. A colega finalizou dizendo não acreditar na solução para o nosso mundo.
O motivo do telefonema, era para dizer que não aceitava a ideia de um mundo sem jeito. Falou que tinha convicção de que a presença da bondade humana, superaria sim, as muitas deformações que temos sofrido no nosso tempo. De que acreditava no amor das pessoas. Que precisava curar a dor daquela decepção com esperança. Confessou estar sofrendo angústias.

Acho razoável sermos uma geração angustiada. Não tem nada de anormal nisso. Nunca se viveu tantas modificações comportamentais como nesse terceiro milênio. Nossa alma não consegue processar tamanha rapidez. Não tenha a ausência da angústia como uma coisa virtuosa. Hipócrates, considerado pai da medicina, no ano 300 a.c., já concordava com isso. Soren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, que nasceu em 1813, já tinha a angústia como uma manifestação própria da nossa natureza. Para Kierkegaard a angústia é fruto da consciência de quem somos, da nossa liberdade, e, consequentemente, da nossa responsabilidade diante da vida.

Faz vinte e seis anos que trabalho diretamente com a angústia humana. Tenho experiência suficiente para afirmar que, em certa medida, a angústia é saudável e faz parte da nossa caminhada. Quem não sofre, no mínimo falta responsabilidade pela vida.
Vejo que o problema não é a presença da angústia mas de sinais que, de um jeito ou de outro, provocam desmedida na alma. São sinais de multiplicação da violência, indiferença, ganância, desordem, desumanização. Se esses sinais não nos afetam, estamos sofrendo de uma desmedida na alma. Se nos atinge e nos desanima, sofremos angústia desmedida e precisaremos tratar para não sermos destruídos.

Não sei se já aconteceu com você, mas tenho conhecido pessoas que dizem não sofrer com o cenário desumanizante. É gente que se sente poderosa, imune a todas as adversidades. No fundo quer passar uma daquelas mensagens que estão na moda: “Sou campeão! Sou vencedor! Fui colocado por cabeça e não por cauda!”.
Não me atrai essa cultura do vencedor poderoso. Quero continuar gente, mesmo em um mundo de semideuses. Prefiro concordar com Álvaro de Campos, heterônimo do nosso grande Fernando Pessoa, no seu “Poema em linha reta”, tem um trecho que diz:

“Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza

Na tentativa de fugir do sofrimento, temos perdido o que há de mais nobre na nossa humanidade, que é o dom de sentir dor, da empatia; esse valor inerente que nos move a alma. Nossa capacidade de nos importar com o sofrimento do outro.
Claro que não podemos agir sem responsabilidade. Precisamos cuidar para não deformar nossa alma; encontrar um jeito de não adoecer. É aqui que deixo meu conselho: O que vai garantir nossa saúde emocional, será nossa disposição de construirmos amizade. Não existe remédio mais eficaz para a cura da angústia do que a amizade. Acredito que por isso, a bíblia, falando da angústia, no “Livro das Sabedorias”, no capítulo 17, diz: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. E como a angústia é conduzida por medos, amar o amigo vai afastar todo medo. Medo se combate com companhia, qualquer criança sabe disso. João, escritor do livro do apocalipse, envolvido por visões e imagens desconhecidas, provocadoras de medos, afirmou: “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora todo medo. Ora, o medo produz tormento, mas o amor nos aperfeiçoa, logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor”.

Nossa tarefa será enxergar valor na amizade, mesmo em um mundo sem vínculos, sem alianças, com laços frouxos, como disse o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman. Teremos que enfrentar a solidão que fabricamos. Solidão que optamos como saída de emergência, para não nos comprometermos com o que sofre. Diferente daquela solidão identificada por Gabriel Garcia Márquez, que em um desabafo, disse: “O segredo de uma velhice agradável, consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”.

No final do dia, minha amiga Carol nos fez uma visita e continuamos aquele diálogo. Foi uma noite muito agradável. Ela havia colocado seus sentimentos num poema rimado. Pedi permissão para escrever sobre a nossa conversa e publicar seu poema. O poema se chama “”:

Quem disse que o mundo não tem mais jeito?
Que falar de amor já não faz efeito?
Que o homem simplesmente se perdeu?
Quem inventou que só existe breu?
Por que a TV só mostra violência?
O amor insiste em ser resistência!
Repara em cada mínima ação:
Doou lençol para quem dorme no chão…
Emprestou colo, ombro e atenção.
Por que não deixam a voz do amor soar?
Inspiração vem de quem sabe amar.
De tanto ver, o outro fez igual:
Amado, amou de forma gradual,
Tirou do peito a ideia de rival.
O ser humano, é, sim, fragilidade!
Comete erros com facilidade.
Mas pode haver mudanças sim senhor!
Jesus morreu sem abrir mão da dor.
Deserto também tem a sua flor.
De tanto acreditar, foi lá e fez.
Se desacreditar, era uma vez…
Afinal, por que é que vou agir,
Se a ideia diz que não vou conseguir?
O amor alcança o sonho que vier…
Moldar-se outro e ser o que quiser?
O novo homem é só uma questão de fé!

Carol é escritora com vários livros publicados. Sua obra é belíssima, quem nunca leu “Serafina”, leia, é uma das minhas prediletas!
A coincidência do telefonema não foi a única que aconteceu. Tenho pensado e rabiscado junto com a Fernanda, minha esposa, um plano para envolver pessoas em um movimento de reeducação da amizade. Pois não é que a Carol e o Junior, seu esposo, estão já há algum tempo com o mesmo plano? Achei isso fantástico!

Percebo que não estou sozinho na crença de um mundo que tem jeito. Me sinto acompanhado na espera da contemplação de algo bonito que poderá nos acontecer. É na comunhão, na amizade, que moram as lentes da contemplação da beleza. Continuo na expectativa de ser surpreendido pelo novo desejável. Segundo o Salmo 133, nada melhor para nos surpreender com o novo, do que a amizade.
É verdade que vou continuar sentindo angústias. É natural! Mas não desistirei da esperança de encontrar meus pares. Pessoas que dividirão a carga comigo. Amigos que afastarão os meus medos. Amigos que me ajudarão a polir as lentes da beleza. Que me ajudarão a sonhar um mundo melhor.

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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