Crônicas

A boa nova de grande alegria

Se alguém me perguntar se acho correto ouvir conversa alheia, responderei sem titubear: Absolutamente, não! É muito deselegante. Mas, entre achar correto e gostar, existe uma sutil diferença. Nem sempre consigo evitar. Foi o que me aconteceu essa semana. Estava em uma agência bancária, esperando ser atendido. O tempo parecia não passar. De repente, ouvi alguém dizer: “Natal é uma coisa diabólica”. Achei a colocação muito forte. Mesmo tentando, não conseguia mais desviar minha atenção daquela conversa.

Minha esposa e eu, sempre quando estamos juntos em lugares públicos, esperando por algo, como nesse caso da agência bancária, para que o passar do tempo não se torne enfadonho, fazemos uma brincadeira. Olhamos as pessoas ao nosso redor e imaginamos hipoteticamente suas vidas. Comentamos um com o outro sobre suas supostas identidades. Quem são, em que trabalham, o que gostam de fazer, seus temperamentos. Garanto que isso ajuda muito a passar o tempo. Experimente! Você vai gostar.

Mesmo desacompanhado da minha esposa, comecei a conjecturar. Tentei adivinhar quem seria aquele jovem senhor. Um homem bem aparentado, com vestimenta tradicional e cabelos bem cortados e falando de forma tão contundente sobre suas convicções, demonstrando conhecimento sobre entidades espirituais. Classificando o natal como coisa diabólica. Conclui, no meu exercício imaginativo, que supostamente se tratava de uma pessoa organizada, pontual nos seus compromissos e fiel às suas crenças. Não poderia deixar de conjecturar, que seria, também, um dedicado fundamentalista religioso; ferrenho guardião dos bons costumes, daquilo que julgava ser a boa doutrina.

Enquanto aquele jovem senhor falava sobre a celebração de natal, fui tomado por memórias da minha infância. Lembrei-me quando meus pais, nos períodos natalinos, levavam-me para ver as “lapinhas” montadas nas praças. Era assim que chamávamos os presépios de natal. Câmara Cascudo, historiador e antropólogo potiguar, fez uma distinção entre “lapinha” e “presépio”, mas, para uma criança cearense, tinha o mesmo significado.

A verdade é que nunca abandonei essa paixão de criança. Não consigo passar por um presépio sem dar uma boa olhada em todos os seus detalhes. Sempre me traz sentimentos confortantes. O presépio é algo mágico, encantador. Traz a sensação de pertencimento. Sinto-me acompanhado. Reconheço-me irmanado. Parte de uma grande família. Navegador de um mesmo barco. Morador de um mesmo mundo. O presépio acende o valor da singeleza da alma. Mostra-nos o quanto é importante nos enxergarmos feitos do mesmo pó. E acima de tudo, nos mostra que a beleza sempre habitará na nossa fragilidade e simplicidade humana.

Achei o termo usado por aquele jovem senhor para classificar o sentido da celebração de natal, pouco apropriado. Dizer que o natal é “diabólico”, é desconhecer nossa necessidade de sermos um. De estamos lutando para unirmos um mundo dividido, polarizado. É ignorar o fato de que as pessoas estão, cada vez mais, afastadas uma das outras. O natal nos une! Nos coloca em torno da mesa. Promove o ambiente da comensalidade. Inclusive, no mundo antigo, o entorno da mesa, que representava a comensalidade, era um sinal de felicidade, porque unia as pessoas, promovia comunhão.

O natal é um símbolo cristão, e por estar na categoria do “simbólico”, ironicamente, traz a ideia contrária ao “diabólico”. A palavra “diabólico”, significa lançar separado, afastado. Enquanto a palavra “simbólico”, significa lançar junto, acompanhado. A palavra “simbólico” traz o prefixo “sim”, que vem do grego “syn”, que significa junto, acompanhado. A palavra “diabólico” traz o prefixo “dia”, que vem do grego “di”, que significa separado, afastado. Os dois prefixos gregos “sim” e “dia”, unidos a palavra “bólico”, do grego “ballō”, “ballein”, que significa “lançar”, formam as palavras “simbólico” e “diabólico”. O natal é “simbólico”, ou seja, nos lança juntos, nos une, promove comunhão.

Não preciso ser convencido. Sei das muitas discussões religiosas em torno da comemoração do natal. Não pretendo desconsiderá-las ou diminuí-las. Quero apenas dizer que não importa se você classifica a celebração de natal como coisa “simbólica” ou “diabólica”. O importante é estarmos unidos, acreditando na boa notícia de grande alegria, que alcançará, não só alguns, mas todos nós.

Na ocasião do nascimento de Jesus, apareceu um anjo, dizendo: “Eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo. É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. Esse era o anúncio do natal. A “boa nova de grande alegria”, não apenas para alguns, mas, “para todo o povo”. Não só para os que estavam com a vida redondinha. Não só para os que estavam alegres. Nem tão pouco para os que pretendiam ter vida fácil. Seria para pessoas como eu e você, que estamos na arena da vida, cujo rosto está manchado de poeira, suor e sangue. Pessoas sujeitas as mais variadas contingências, padecendo das mais diversas fragilidades humanas.

Acredito que foi por isso, que na ocasião do primeiro natal, José e Maria, sua esposa, sofreram aquelas condições. Não havia lugar em nenhuma hospedaria para eles. Jesus nasceu numa estribaria, na manjedoura. A boa notícia do natal não é seletiva. Alcança e comporta todas as realidades humanas. Contempla os da estribaria, o pobre, o rico, o afortunado, o atribulado, o saudável, o enfermo, o bem-sucedido, o falido, o consolado, o aflito, o angustiado, o desempregado.

Deixo claro todo meu respeito àquele jovem senhor e a todos os fundamentalistas religiosos, ferrenhos guardiões da boa doutrina, que tratam a celebração de natal como coisa “diabólica”. Mesmo respeitando, acho esse tipo de militância uma perda de tempo. Não tem nenhuma relevância. O importante é advertir, que ao contrário do que muitos pensam, o natal sempre trará a “boa nova de grande alegria”, mesmo em tempos de dificuldades, em meio aos grandes desafios da nossa vida.

Nesse período natalino, quero desejar a “boa nova de grande alegria”, para todo aquele que precisa de salvação. Que precisa ser salvo da sua angústia, do seu medo, do seu vício, dos seus grilhões. Acender esperança no coração de todo aquele que precisa ser alcançado pela companhia do “Deus Emanuel, Deus conosco”. Suscitar sentimentos de alegria, por existir a possibilidade da presença do “Maravilhoso Conselheiro, Príncipe da Paz”. Preciso anunciar, dizendo: “É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.

FELIZ NATAL!

Flávio Leite

REFLEXÕES AUTORAIS SOBRE HUMANIDADE Palestrante, educador e estudioso da filosofia e do comportamento humano 👇🏽Leia a crônica da semana www.flavioleite.com

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